Diálogos X-Crotos - Vida Real
Minha prezada Lanika publicou essa história no Multiply. Encaixava-se tão bem nos Diálogos X-Crotos que pedi a autorização dela para reproduzir. Cá está:
Hora do almoço. Pego meu Études literaires sur Baudelaire e penso em dar uma pausa no ritmo frenético de pré-lançamento de filme lendo na praça em frente ao meu trabalho. Estou, como sempre, vestida de preto. Talvez um pouco mais arrumada que o habitual. E pago o preço por isso:
Motoboy saindo do prédio: "Nossa colega... o viúvo era um cara de sorte. "
Se eu ganhasse um centavo de dólar todas as vezes que ouvi essa frase ao longo dos anos - pelo menos os outros tinham a decência de falar "falecido", animalzinho! - estava rica. Bateu, levou:
Eu: "Infelizmente ele ainda não morreu. Mas eu adoraria matá-lo! "
Ele: "Poxa, mas eu bem que queria estar no lugar dele".
Eu (não agüento): "Por quê? Você também quer que eu te mate?"
Atravessei a rua e fui tratar de ler meu livro, ignorando o ataque de gagueira do sujeito.
Espaço onde o jornalista Leonardo Pimentel pode se dedicar a falar mal do que bem entender.
Aviso
Apesar de criado por um jornalista, este blog não é nem pretende ser imparcial. Ele reflete minhas opiniões, meus gostos, desgostos, preconceitos e pós-conceitos. Se alguém se sentir ofendido, "paciência"...
Se quiser, mande-me um e-mail
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quinta-feira, 18 de novembro de 2004
sábado, 13 de novembro de 2004
Até que enfim
Até que enfim
Li hoje no jornal que o governo brasileiro classificou a China como uma "economia de mercado". A Fiesp soltou nota dizendo que não é, não, e fico meio na dúvida quanto à relevância da classificação pelo Planalto.
De qualquer forma, seria muito bom se a economia chinesa fosse universalmente aceita como "de mercado", pois isso acabaria de vez com um sofisma que a minha geração ouviu ad nauseum: que o capitalismo (do qual "economia de mercado" é só nome de fantasia) está umbilicalmente ligado à democracia.
Pelo contrário. Nenhum empresário vai admitir isso em on, mas, se pudesse escolher, preferiria produzir num lugar sem liberdade sindical, sem imprensa para denunciar corrupção, sem um Judiciário independente, sem partidos de oposição etc. etc. Basta lembrar que anos atrás a tetéia latino-americana da banca era o Chile, cuja economia cresceu horrores sob a igualmente horrorosa ditadura de Pinochet - sem falar do Milagre no governo Médici.
Pois bem, de agora em diante temos a China para nos lembrar que capitalismo gosta, e muitcho, de uma ditadurazinha.
Li hoje no jornal que o governo brasileiro classificou a China como uma "economia de mercado". A Fiesp soltou nota dizendo que não é, não, e fico meio na dúvida quanto à relevância da classificação pelo Planalto.
De qualquer forma, seria muito bom se a economia chinesa fosse universalmente aceita como "de mercado", pois isso acabaria de vez com um sofisma que a minha geração ouviu ad nauseum: que o capitalismo (do qual "economia de mercado" é só nome de fantasia) está umbilicalmente ligado à democracia.
Pelo contrário. Nenhum empresário vai admitir isso em on, mas, se pudesse escolher, preferiria produzir num lugar sem liberdade sindical, sem imprensa para denunciar corrupção, sem um Judiciário independente, sem partidos de oposição etc. etc. Basta lembrar que anos atrás a tetéia latino-americana da banca era o Chile, cuja economia cresceu horrores sob a igualmente horrorosa ditadura de Pinochet - sem falar do Milagre no governo Médici.
Pois bem, de agora em diante temos a China para nos lembrar que capitalismo gosta, e muitcho, de uma ditadurazinha.
sexta-feira, 12 de novembro de 2004
terça-feira, 9 de novembro de 2004
Para bom entendedor...
Para bom entendedor...
Cheguei de viagem de dei de cara com meus DVDs (que ficam embaixo da mesa de centro) presos com fita crepe e todos os objetos de cima da dita mesa removidos. Nem precisei perguntar para chegar à conclusão óbvia... Luísa começou a engatinhar.
Agora ninguém segura.
Cheguei de viagem de dei de cara com meus DVDs (que ficam embaixo da mesa de centro) presos com fita crepe e todos os objetos de cima da dita mesa removidos. Nem precisei perguntar para chegar à conclusão óbvia... Luísa começou a engatinhar.
Agora ninguém segura.
quinta-feira, 4 de novembro de 2004
Semaninha de merda...
Semaninha de merda...
Por enquanto ainda é boato, mas parece que Yasser Arafat teve morte cerebral. Em se confirmar, desaparece o último dos dois signatários da mais sólida iniciativa de paz do Oriente Médio. O outro, o saudoso primeiro-ministro Itzak Rabin, foi assassinado por um extremista judeu, em meio a uma pesada campanha de difamação promovida pelo partido direitista Likud, atual detentor do poder em Israel.
De cara, pode-se dizer que, após a vitória de Bush, a eventual morte de Arafat vai fazer a alegria da direita norte-americana. Para ser a melhor semana de todos os tempos para eles, só falta todos os gays morrerem ao mesmo tempo.
Por outro lado, a morte cerebral não significa que o comandante tenha que deixar a chefia da Autoridade Palestina. Bush também não usa muito o cérebro e conseguiu até se reeleger.
Por enquanto ainda é boato, mas parece que Yasser Arafat teve morte cerebral. Em se confirmar, desaparece o último dos dois signatários da mais sólida iniciativa de paz do Oriente Médio. O outro, o saudoso primeiro-ministro Itzak Rabin, foi assassinado por um extremista judeu, em meio a uma pesada campanha de difamação promovida pelo partido direitista Likud, atual detentor do poder em Israel.
De cara, pode-se dizer que, após a vitória de Bush, a eventual morte de Arafat vai fazer a alegria da direita norte-americana. Para ser a melhor semana de todos os tempos para eles, só falta todos os gays morrerem ao mesmo tempo.
Por outro lado, a morte cerebral não significa que o comandante tenha que deixar a chefia da Autoridade Palestina. Bush também não usa muito o cérebro e conseguiu até se reeleger.
quarta-feira, 3 de novembro de 2004
Nostalgia
Nostalgia
Recebi hoje uma mensagem com uma notícia boa demais pra ser verdade, mesmo publicada na Folha. A fonte é a Reuters, mas a dita agência está com a credibilidade mais em baixa de umbigo de cobra, depois da pesquisa de boca de urna nos EUA.
Mas diz a notícia que um sujeito de 46 anos entrou na área dos leões no zoológico de Taipé para converter os animais ao cristianismo. Sim, isso mesmo que você leu. Aos gritos de "Jesus vai salvar vocês!", o homem chegou a poucos metros de dois leões.
Para a sorte do maluco, os leões tinham sido alimentados, o que o salvou de ser devorado. Porém, como nem leão agüenta o proselitismo dessa gente, um dos animais tascou-lhe uma dentada na perna, antes que o tratador interviesse. Parece que o leão passa bem.
Lembrou-me a anedota clássica do sujeito que, acossado por um leão, fechou os olhos e pediu aos céus que transformassem a fera num bom cristão. Quando olhou, o bicho estava ajoelhado e rezando: "Senhor, obrigado por esse alimento. Amém."
Tremenda mistura de nostalgia com revisionismo histórico: é o primeiro cristão que se atira voluntariamente aos leões. Que outros (especialmente um certo casal de Campos) sigam esse edificante exemplo.
Recebi hoje uma mensagem com uma notícia boa demais pra ser verdade, mesmo publicada na Folha. A fonte é a Reuters, mas a dita agência está com a credibilidade mais em baixa de umbigo de cobra, depois da pesquisa de boca de urna nos EUA.
Mas diz a notícia que um sujeito de 46 anos entrou na área dos leões no zoológico de Taipé para converter os animais ao cristianismo. Sim, isso mesmo que você leu. Aos gritos de "Jesus vai salvar vocês!", o homem chegou a poucos metros de dois leões.
Para a sorte do maluco, os leões tinham sido alimentados, o que o salvou de ser devorado. Porém, como nem leão agüenta o proselitismo dessa gente, um dos animais tascou-lhe uma dentada na perna, antes que o tratador interviesse. Parece que o leão passa bem.
Lembrou-me a anedota clássica do sujeito que, acossado por um leão, fechou os olhos e pediu aos céus que transformassem a fera num bom cristão. Quando olhou, o bicho estava ajoelhado e rezando: "Senhor, obrigado por esse alimento. Amém."
Tremenda mistura de nostalgia com revisionismo histórico: é o primeiro cristão que se atira voluntariamente aos leões. Que outros (especialmente um certo casal de Campos) sigam esse edificante exemplo.
Mais oito anos
Mais oito anos
Com a derrota de John Kerry, George W. Bush se credencia como o mais forte candidato presidencial em 2008. Não, eu não estou maluco. A Constituição norte-americana determina que uma pessoa só pode ser eleita para a Casa Branca duas vezes. Bem, eleito, eleito mesmo ele só foi agora. De repente deve poder concorrer de novo.
Com a derrota de John Kerry, George W. Bush se credencia como o mais forte candidato presidencial em 2008. Não, eu não estou maluco. A Constituição norte-americana determina que uma pessoa só pode ser eleita para a Casa Branca duas vezes. Bem, eleito, eleito mesmo ele só foi agora. De repente deve poder concorrer de novo.
Cloaca de urna
Cloaca de urna
Toda eleição as pessoas falam nos erros da pesquisa de boca de urna do Ibope, especialmente em São Paulo - a última foi uma notável exceção. Mas Carlos Augusto Montenegro pode dormir sossegado. O Instituto Zogby e a Reuters deram uma nova definição para "erro de pesquisa". Ontem à tarde, com metade dos estados norte-americanos ainda em votação, soltaram uma pesquisa dizendo que John Kerry não apenas ganharia a eleição, como ainda carregaria 313 votos no Colégio Eleitoral.
Quando vi na Globonews a chamada "Boca de urna dá vitória a Kerry", fiquei feliz da vida. Mas a felicidade foi toda embora quando o noticiário detalhou a "pesquisa". Praticamente todos os Estados de Sexo Grupal (tradução livre para Swinging States) foram dados para o democrata - parecia muito mais wishful thinking que pesquisa séria. Quero ver agora o que o instituto e a agência vão dizer.
Quanto à vitória de Bush, não fossem as conseqüências para o resto do mundo, diria quase que é bem feito. Se os americanos querem um presidente que mente patologicamente para levar o país à guerra, que está produzindo um déficit público que vai estuprar-lhes a economia, que delega enormes nacos do governo a empresas e a grupos de extrema-direita evangélica, pior para eles. Claro que as perspectivas para os próximos quatro anos são tétricas, mas a gente sobrevive.
Por enquanto ainda estou saboreando as derrotas de Crivella e Garotinho. Depois choro a vitória de Bush...
Toda eleição as pessoas falam nos erros da pesquisa de boca de urna do Ibope, especialmente em São Paulo - a última foi uma notável exceção. Mas Carlos Augusto Montenegro pode dormir sossegado. O Instituto Zogby e a Reuters deram uma nova definição para "erro de pesquisa". Ontem à tarde, com metade dos estados norte-americanos ainda em votação, soltaram uma pesquisa dizendo que John Kerry não apenas ganharia a eleição, como ainda carregaria 313 votos no Colégio Eleitoral.
Quando vi na Globonews a chamada "Boca de urna dá vitória a Kerry", fiquei feliz da vida. Mas a felicidade foi toda embora quando o noticiário detalhou a "pesquisa". Praticamente todos os Estados de Sexo Grupal (tradução livre para Swinging States) foram dados para o democrata - parecia muito mais wishful thinking que pesquisa séria. Quero ver agora o que o instituto e a agência vão dizer.
Quanto à vitória de Bush, não fossem as conseqüências para o resto do mundo, diria quase que é bem feito. Se os americanos querem um presidente que mente patologicamente para levar o país à guerra, que está produzindo um déficit público que vai estuprar-lhes a economia, que delega enormes nacos do governo a empresas e a grupos de extrema-direita evangélica, pior para eles. Claro que as perspectivas para os próximos quatro anos são tétricas, mas a gente sobrevive.
Por enquanto ainda estou saboreando as derrotas de Crivella e Garotinho. Depois choro a vitória de Bush...
segunda-feira, 1 de novembro de 2004
Sensacional
Sensacional
Ok, eu concordo que comemorar Halloween é macaquice, pura imitação dos americanos. Mas, eu fosse numa festa dessas, ia copiar a fantasia desse sujeito abaixo.
Afinal, é aterrorizante e, pior, retrata um tipo de monstro que existe de verdade.
Ok, eu concordo que comemorar Halloween é macaquice, pura imitação dos americanos. Mas, eu fosse numa festa dessas, ia copiar a fantasia desse sujeito abaixo.
Afinal, é aterrorizante e, pior, retrata um tipo de monstro que existe de verdade.
quarta-feira, 27 de outubro de 2004
Bem-vinda
Galera, nova recomendação. Loch Ness é o blog da minha querida Claudia Manes, sócia-atleta aqui do Espírito de Porco. Ainda está no comecinho, mas, conhecendo-a, sei que vai pintar muita coisa boa.
Galera, nova recomendação. Loch Ness é o blog da minha querida Claudia Manes, sócia-atleta aqui do Espírito de Porco. Ainda está no comecinho, mas, conhecendo-a, sei que vai pintar muita coisa boa.
domingo, 24 de outubro de 2004
Paulada com porrete de pelica
Prezados, confiram o artigo de Marcos Sá Corrêa sobre o episódio do marketeiro de briga do Plananto.
Prezados, confiram o artigo de Marcos Sá Corrêa sobre o episódio do marketeiro de briga do Plananto.
sexta-feira, 22 de outubro de 2004
Estamos mal parados...
O que é pior, o marketeiro do Planalto ser preso numa rinha de briga de galos (que, além de ser crime, é uma prática que mostra apenas crueldade e torpeza) ou insistir que não fez nada de errado?
Será que esses boçais a quem eu, num momento de insensatez que não vai se repetir, ajudei a entregar o país não entendem que são governo, que têm alguns compromissos mínimos com conduta, com ética e, principalmente, com lei?
Atualização: Para piorar o que já era ruim, o noticiário hoje dá conta que, ao ser preso em flagrante, Duda Mendonça sacou o celular e ligou para o ministro da Justiça para pedir ajuda. Só falta agora o ministro ajudar...
O que é pior, o marketeiro do Planalto ser preso numa rinha de briga de galos (que, além de ser crime, é uma prática que mostra apenas crueldade e torpeza) ou insistir que não fez nada de errado?
Será que esses boçais a quem eu, num momento de insensatez que não vai se repetir, ajudei a entregar o país não entendem que são governo, que têm alguns compromissos mínimos com conduta, com ética e, principalmente, com lei?
Atualização: Para piorar o que já era ruim, o noticiário hoje dá conta que, ao ser preso em flagrante, Duda Mendonça sacou o celular e ligou para o ministro da Justiça para pedir ajuda. Só falta agora o ministro ajudar...
Inamovível
Ontem, conversando com um chefe da empresa baseado em São Paulo, comentávamos que o baixo nível da campanha para o segundo turno lá não refletia a qualidade dos candidatos. Goste-se ou não deles, Marta Suplicy e José Serra têm biografias e projetos respeitáveis. Numa cidade que já elegeu Maluf e Pitta, um segundo turno com os candidatos atuais é quase um luxo.
Independentemente disso, impressiona ver uma notícia na Folha On Line. Segundo o Ibope, Marta subiu um ponto percentual e agora tem 37% da preferência. O problema é que isso representa apenas 1,18 ponto percentual acima dos 35,8% de votos que ela recebeu no primeiro turno. Como a margem de erro é de dois pontos, ela está estacionada. E isso depois de (ou por) o PT ir buscar apoio até de Paulo Maluf.
É para acender alguns alertas vermelhos (com trocadilho, please)...
Autalização: Leio hoje no Globo que Marta não subiu um, sim caiu dois pontos percentuais. A explicação (subentendida) está na mesma página, um cartaz dela com Maluf.
Ontem, conversando com um chefe da empresa baseado em São Paulo, comentávamos que o baixo nível da campanha para o segundo turno lá não refletia a qualidade dos candidatos. Goste-se ou não deles, Marta Suplicy e José Serra têm biografias e projetos respeitáveis. Numa cidade que já elegeu Maluf e Pitta, um segundo turno com os candidatos atuais é quase um luxo.
Independentemente disso, impressiona ver uma notícia na Folha On Line. Segundo o Ibope, Marta subiu um ponto percentual e agora tem 37% da preferência. O problema é que isso representa apenas 1,18 ponto percentual acima dos 35,8% de votos que ela recebeu no primeiro turno. Como a margem de erro é de dois pontos, ela está estacionada. E isso depois de (ou por) o PT ir buscar apoio até de Paulo Maluf.
É para acender alguns alertas vermelhos (com trocadilho, please)...
Autalização: Leio hoje no Globo que Marta não subiu um, sim caiu dois pontos percentuais. A explicação (subentendida) está na mesma página, um cartaz dela com Maluf.
quarta-feira, 20 de outubro de 2004
Carta da desgovernadora à imprensa inglesa
Very Excellent Mister,
We read in your niuspeipe that Rio is quepital of coqueine. And vorse, dat here is laiki Sudan i Xexenia. Rio is veri, veri diferenti, Rio is vonderful. We nou deti is bicose de elexion, and this articol has the finguer of Cesar Maia, from devils party. Do not mix garlic with bugarlic. Rio is Rio, Sudan is Sudan and Xexenia, I dont qnow uere it is. Best regards,
Little Rose,
Wife of Little Boy,
Governor in charge of wonderful city
Contribuição da minha querida Claudia Manes
Very Excellent Mister,
We read in your niuspeipe that Rio is quepital of coqueine. And vorse, dat here is laiki Sudan i Xexenia. Rio is veri, veri diferenti, Rio is vonderful. We nou deti is bicose de elexion, and this articol has the finguer of Cesar Maia, from devils party. Do not mix garlic with bugarlic. Rio is Rio, Sudan is Sudan and Xexenia, I dont qnow uere it is. Best regards,
Little Rose,
Wife of Little Boy,
Governor in charge of wonderful city
Contribuição da minha querida Claudia Manes
terça-feira, 19 de outubro de 2004
Sacadas de peso
Mais uma dicar certeira é Glutus Obesus, blog da querida amiga orkuteira Cláudia Roncador.
Mais uma dicar certeira é Glutus Obesus, blog da querida amiga orkuteira Cláudia Roncador.
É pelos textos...
Povo, a recomendação, já incorporada aos links permanentes da página, é LAD, blog que meu prezado Pedro Doria mantém em parceria com Marcos Moura.
São textos espirituosos, boas sacadas, pensatas interessantes, rese... Peraí. Quem eu estou querendo enganar? Se eu li três textos, foi muito. Fucei todas as páginas para ver as belíssimas fotos eróticas que os dois garimpam.
Sinceramente, o LAD é que nem o World Trade Center. Só entra avião.
Povo, a recomendação, já incorporada aos links permanentes da página, é LAD, blog que meu prezado Pedro Doria mantém em parceria com Marcos Moura.
São textos espirituosos, boas sacadas, pensatas interessantes, rese... Peraí. Quem eu estou querendo enganar? Se eu li três textos, foi muito. Fucei todas as páginas para ver as belíssimas fotos eróticas que os dois garimpam.
Sinceramente, o LAD é que nem o World Trade Center. Só entra avião.
segunda-feira, 11 de outubro de 2004
Saudade
A cultura brasileira, já tão combalida, sofreu hoje um abalo irreparável. Morreu no Rio o escritor Fernando Sabino. Cristina, grande fã dele, mandou-me do trabalho esta crônica. Espero que vocês gostem tanto quanto eu gostei.
'A Última Crônica', de Fernando Sabino
"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."
Crônica publicada no livro "A Companheira de viagem" (Editora Record, 1965)
A cultura brasileira, já tão combalida, sofreu hoje um abalo irreparável. Morreu no Rio o escritor Fernando Sabino. Cristina, grande fã dele, mandou-me do trabalho esta crônica. Espero que vocês gostem tanto quanto eu gostei.
'A Última Crônica', de Fernando Sabino
"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."
Crônica publicada no livro "A Companheira de viagem" (Editora Record, 1965)


