De Naya a Jackson
Não sei se serve de consolo, mas, pelo menos em termos de Justiça esculhambada, estamos pau a pau com os EUA.
Espaço onde o jornalista Leonardo Pimentel pode se dedicar a falar mal do que bem entender.
Aviso
Apesar de criado por um jornalista, este blog não é nem pretende ser imparcial. Ele reflete minhas opiniões, meus gostos, desgostos, preconceitos e pós-conceitos. Se alguém se sentir ofendido, "paciência"...
Se quiser, mande-me um e-mail
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segunda-feira, 13 de junho de 2005
quarta-feira, 8 de junho de 2005
Daí é que não sai nada
Daí é que não sai nada
Imagine a seguinte situação: No meio de uma partida de futebol, jogadores de um dos times denunciam ao juiz que um adversário deu um chute sem bola na canela do goleiro. O árbitro chama o suposto agressor e este, para se defender da acusação, mostra as mãos, para o juiz ver que não há marcas.
Conclusão? O cara está embromando o juiz. Se deu um chute, não haveria mesmo marcas nas mãos.
A situação pode parecer ridícula, mas é exatamente o que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, está tentando fazer, segundo o noticiário. Pivô da atual crise política, ele ofereceu abrir mão dos sigilos fiscal e bancário.
Bonitinho, não? Só tem um problema: No momento, ele não é acusado de enriquecimento ilícito ou de sonegação fiscal. A acusação é que pagava mesada a deputados da escória aliada para votarem com o governo. É improbabilíssimo que ele usasse uma conta oficial para isso ou que declarasse ao fisco. A quebra dos sigilos, para citar o Analista de Bagé, é tão produtiva quando mijar num incêndio.
Será que ele não topa trocar pela quebra do sigilo telefônico de casa, do celular e do escritório? Aí é que pode estar uma pista.
Imagine a seguinte situação: No meio de uma partida de futebol, jogadores de um dos times denunciam ao juiz que um adversário deu um chute sem bola na canela do goleiro. O árbitro chama o suposto agressor e este, para se defender da acusação, mostra as mãos, para o juiz ver que não há marcas.
Conclusão? O cara está embromando o juiz. Se deu um chute, não haveria mesmo marcas nas mãos.
A situação pode parecer ridícula, mas é exatamente o que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, está tentando fazer, segundo o noticiário. Pivô da atual crise política, ele ofereceu abrir mão dos sigilos fiscal e bancário.
Bonitinho, não? Só tem um problema: No momento, ele não é acusado de enriquecimento ilícito ou de sonegação fiscal. A acusação é que pagava mesada a deputados da escória aliada para votarem com o governo. É improbabilíssimo que ele usasse uma conta oficial para isso ou que declarasse ao fisco. A quebra dos sigilos, para citar o Analista de Bagé, é tão produtiva quando mijar num incêndio.
Será que ele não topa trocar pela quebra do sigilo telefônico de casa, do celular e do escritório? Aí é que pode estar uma pista.
segunda-feira, 6 de junho de 2005
De volta ao assunto
De volta ao assunto
Raciocínio (por si só maquiavélico) da Cristina: "Sei que é o cúmulo do maquiavelismo, mas e se o Roberto Jefferson inventou essa história há mais de um ano e foi falando dela com as pessoas para, quando viesse a público, elas confirmarem que tinham sido alertadas?"
O pior é que não é uma hipótese a ser descartada...
Raciocínio (por si só maquiavélico) da Cristina: "Sei que é o cúmulo do maquiavelismo, mas e se o Roberto Jefferson inventou essa história há mais de um ano e foi falando dela com as pessoas para, quando viesse a público, elas confirmarem que tinham sido alertadas?"
O pior é que não é uma hipótese a ser descartada...
Pausa pra respirar II - A Missão
Pausa pra respirar II - A Missão
Depois de décadas de mistério, revelou-se a identidade de "Garganta Profunda", a secretíssima fonte de Bob Woodward e Karl Bernstein, do Washington Post, no caso Watergate. Fiquei pensando, se George Lucas tivesse dirigido Todos os Homens do Presidente, daqui a alguns meses teríamos uma versão revista do filme com um ator criado por computador vivendo Mark Felt, o então vice-diretor do FBI que fornecia informações para os repórteres.
Depois de décadas de mistério, revelou-se a identidade de "Garganta Profunda", a secretíssima fonte de Bob Woodward e Karl Bernstein, do Washington Post, no caso Watergate. Fiquei pensando, se George Lucas tivesse dirigido Todos os Homens do Presidente, daqui a alguns meses teríamos uma versão revista do filme com um ator criado por computador vivendo Mark Felt, o então vice-diretor do FBI que fornecia informações para os repórteres.
Pausa pra respirar
Pausa pra respirar
Leio hoje que a Apple pretende adotar processadores Intel em seus computadores a partir do ano que vem. Durante anos meus amigos usuários de Mac - Pedro Doria e Octávio Aragão à frente - viviam deitando falação sobre a confiabilidade das maçãs. Não só do celebrado Mac-OS, mas do hardware propriamente dito. Parece que Steve Jobs não concorda...
Fico que imaginando a cara da turma que se divertia nas convenções de usuários de Apple com adesivos dizendo "Intel Outside"...
Leio hoje que a Apple pretende adotar processadores Intel em seus computadores a partir do ano que vem. Durante anos meus amigos usuários de Mac - Pedro Doria e Octávio Aragão à frente - viviam deitando falação sobre a confiabilidade das maçãs. Não só do celebrado Mac-OS, mas do hardware propriamente dito. Parece que Steve Jobs não concorda...
Fico que imaginando a cara da turma que se divertia nas convenções de usuários de Apple com adesivos dizendo "Intel Outside"...
Cara a tapa
Cara a tapa
Por mais chocante que seja, tudo indica que a denúncia de Roberto Jefferson está se configurando como verdade, ainda que falte o revólver fumegante na mão de Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Primeiro foi o deputado Miro Teixeira (PT-RJ) que confirmou ter recebido a denúncia de Jefferson quando era ministro das Comunicações. Miro disse que, na época, insistiu com Jefferson que a denúncia fosse levada a Lula, mas o deputado amarelou. Por isso, declarou hoje, não acreditava que ele tivesse, de fato, contado ao presidente. Mas deixou no ar que existem denúncias de corrupção ainda piores a caminho.
Eis que agora à noite o ministro Aldo Rabelo, da Coordenação Política, admitiu que Lula realmente recebeu a denúncia, mas sem os detalhes e a reação lacrimosa de que Jefferson falou. Por mais ridículo que pareça, a tônica da fala de Aldo que é as acusações não são contra o governo, mas contra "um partido". O "um partido", no caso é só o partido do presidente e da cúpula do governo. Parece ter feito pós-graduação na Escola George W. Bush de embromação política.
Mais cedo, o senador Aloísio Mercadante (PT-SP), que anda precisando tomar Simancol na veia, subiu à tribuna para garantir que Lula não tinha chorado. "Quem conhece o presidente Lula sabe que ele não é muito de chorar." Pombas, Lula cansou de ser sacaneado por chorar em qualquer solenidade.
A situação é muito triste, especialmente para ex-eleitores de Lula, como eu. Como Delúbio não é burro nem louco, não deve ser fácil provar a existência do mensalão. É improbabilíssimo que tenham sido usadas contas quentes. Por outro lado, vai ser igualmente difícil segurar uma CPI, uma vez que qualquer deputado que fique contra passa a ser suspeito de ter se beneficiado pela boquinha. Em vez de uma comissão para investigar a roubalheira de petebistas nos Correios, teremos uma para arregaçar em público as entranhas do partido do governo até a próxima eleição. Nunca, nem nos meus piores pesadelos, podia imaginar um cenário desses.
Ah, duas constatações importantes:
1) Roberto Jefferson é um artista. Pivô de denúncias de corrupção nos Correios e no IRB, conseguiu em um dia virar o jogo. A manchete do Globo hoje denunciava que seus apadrinhados manipulavam até R$ 4 bi. Dificilmente ele será réu nas manchetes de amanhã.
2) Pobre JB. A denúncia que sacudiu o país hoje pelas páginas da Folha tinha saído no jornal carioca no ano passado, atribuída então a Miro Teixeira. A absoluta falta de repercussão dá uma boa medida da pouca relevância do outrora sonho de consumo dos estudantes de jornalismo. Uma pena.
Por mais chocante que seja, tudo indica que a denúncia de Roberto Jefferson está se configurando como verdade, ainda que falte o revólver fumegante na mão de Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Primeiro foi o deputado Miro Teixeira (PT-RJ) que confirmou ter recebido a denúncia de Jefferson quando era ministro das Comunicações. Miro disse que, na época, insistiu com Jefferson que a denúncia fosse levada a Lula, mas o deputado amarelou. Por isso, declarou hoje, não acreditava que ele tivesse, de fato, contado ao presidente. Mas deixou no ar que existem denúncias de corrupção ainda piores a caminho.
Eis que agora à noite o ministro Aldo Rabelo, da Coordenação Política, admitiu que Lula realmente recebeu a denúncia, mas sem os detalhes e a reação lacrimosa de que Jefferson falou. Por mais ridículo que pareça, a tônica da fala de Aldo que é as acusações não são contra o governo, mas contra "um partido". O "um partido", no caso é só o partido do presidente e da cúpula do governo. Parece ter feito pós-graduação na Escola George W. Bush de embromação política.
Mais cedo, o senador Aloísio Mercadante (PT-SP), que anda precisando tomar Simancol na veia, subiu à tribuna para garantir que Lula não tinha chorado. "Quem conhece o presidente Lula sabe que ele não é muito de chorar." Pombas, Lula cansou de ser sacaneado por chorar em qualquer solenidade.
A situação é muito triste, especialmente para ex-eleitores de Lula, como eu. Como Delúbio não é burro nem louco, não deve ser fácil provar a existência do mensalão. É improbabilíssimo que tenham sido usadas contas quentes. Por outro lado, vai ser igualmente difícil segurar uma CPI, uma vez que qualquer deputado que fique contra passa a ser suspeito de ter se beneficiado pela boquinha. Em vez de uma comissão para investigar a roubalheira de petebistas nos Correios, teremos uma para arregaçar em público as entranhas do partido do governo até a próxima eleição. Nunca, nem nos meus piores pesadelos, podia imaginar um cenário desses.
Ah, duas constatações importantes:
1) Roberto Jefferson é um artista. Pivô de denúncias de corrupção nos Correios e no IRB, conseguiu em um dia virar o jogo. A manchete do Globo hoje denunciava que seus apadrinhados manipulavam até R$ 4 bi. Dificilmente ele será réu nas manchetes de amanhã.
2) Pobre JB. A denúncia que sacudiu o país hoje pelas páginas da Folha tinha saído no jornal carioca no ano passado, atribuída então a Miro Teixeira. A absoluta falta de repercussão dá uma boa medida da pouca relevância do outrora sonho de consumo dos estudantes de jornalismo. Uma pena.
Me engana que eu gosto
Me engana que eu gosto
Diz o ditado que os Deuses estão nos detalhes. Acusado, como diria Chico Buarque, até de dar desfalque no banco dos réus, Roberto Jefferson diz que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava um mensalão a deputados dos partidos de aluguel na "base aliada". Os valores, diz ele, chegariam a R$ 30 mil.
Não que eu continue acreditando na lisura do PT, mas daí a Jefferson dizer que a prática não acontecia no governo anterior e, pior, que ele e o PTB não aceitaram, é abuso. Há que se ter um mínimo de respeito pela inteligência alheia.
Diz o ditado que os Deuses estão nos detalhes. Acusado, como diria Chico Buarque, até de dar desfalque no banco dos réus, Roberto Jefferson diz que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava um mensalão a deputados dos partidos de aluguel na "base aliada". Os valores, diz ele, chegariam a R$ 30 mil.
Não que eu continue acreditando na lisura do PT, mas daí a Jefferson dizer que a prática não acontecia no governo anterior e, pior, que ele e o PTB não aceitaram, é abuso. Há que se ter um mínimo de respeito pela inteligência alheia.
sexta-feira, 3 de junho de 2005
Ser otário é tudo de bom
Ser otário é tudo de bom
Eu sou um otário. É serio. Não tenho nem nunca tive o gene da esperteza, o talento para bolar esquemas mirabolantes e a capacidade de "levar vantagem em tudo". Por conta disso, mês após mês tento (e raramente consigo) equilibrar o orçamento, trabalhando e fazendo eventuais frilas.
Claro que isso tem um lado positivo. Por reconhecer-me otário, eu nunca caio em golpes. Sempre que alguém me oferece um "negócio maravilhoso", uma "oportunidade em um milhão", acredito que o sujeito quer tirar vantagem da minha óbvia otarice. Como sei que não sou esperto, sempre amarelo. Talvez algum dia perca um "negócio maravilhoso" de verdade, mas até hoje só consegui escapar de furadas.
Porque esse é o detalhe: o mundo não está divido entre "otários" e "espertos", mas entre "otários", "espertos" e "muito espertos". Quem cai nos golpes dos muito espertos são os espertos, não os otários. Quando um muito esperto convida para participar, por exemplo, de um negócio que envolve desvio de verbas, um otário acha que vai ser descoberto e não entra. Um esperto acha que vai se dar bem e acaba ganhando um processo do Ministério Público.
Lembrei disso, entre outros motivos, ao ler hoje que empresários espertos morreram em R$ 300 milhões na mão de uma quadrilha que oferecia empréstimos internacionais a longuíssimo prazo e juros baixos. Qualquer otário que já precisou levantar uma grana no banco sabe que isso não existe. Mas os espertos acreditavam realmente que, pagando 10% do valor que pretendiam levantar, a grana viria molinha, molinha... Ah, para passar ao largo dos impostos - sonho dourado de todo esperto -, a grana seguia por doleiros em paraísos fiscais.
O esquema era bacana, envolvendo até escritórios de fachada na Quinta Avenida. Uma vez adiantado o dízimo (Por que será que toda instituição fraudulenta trabalha com dízimos?), o tal fundo negava o empréstimo alegando irregularidades na empresa do esperto. Como é mais fácil achar o Bordel das Normalistas do que uma empresa brasileira cem por cento limpa, não faltavam motivos para as negativas. Com as calças na mão, os espertos não tinham sequer como reaver o dinheiro, pois a remessa fora ilegal.
O esquema era tão bom que funcionou por quatro anos.
Eu sou um otário. É serio. Não tenho nem nunca tive o gene da esperteza, o talento para bolar esquemas mirabolantes e a capacidade de "levar vantagem em tudo". Por conta disso, mês após mês tento (e raramente consigo) equilibrar o orçamento, trabalhando e fazendo eventuais frilas.
Claro que isso tem um lado positivo. Por reconhecer-me otário, eu nunca caio em golpes. Sempre que alguém me oferece um "negócio maravilhoso", uma "oportunidade em um milhão", acredito que o sujeito quer tirar vantagem da minha óbvia otarice. Como sei que não sou esperto, sempre amarelo. Talvez algum dia perca um "negócio maravilhoso" de verdade, mas até hoje só consegui escapar de furadas.
Porque esse é o detalhe: o mundo não está divido entre "otários" e "espertos", mas entre "otários", "espertos" e "muito espertos". Quem cai nos golpes dos muito espertos são os espertos, não os otários. Quando um muito esperto convida para participar, por exemplo, de um negócio que envolve desvio de verbas, um otário acha que vai ser descoberto e não entra. Um esperto acha que vai se dar bem e acaba ganhando um processo do Ministério Público.
Lembrei disso, entre outros motivos, ao ler hoje que empresários espertos morreram em R$ 300 milhões na mão de uma quadrilha que oferecia empréstimos internacionais a longuíssimo prazo e juros baixos. Qualquer otário que já precisou levantar uma grana no banco sabe que isso não existe. Mas os espertos acreditavam realmente que, pagando 10% do valor que pretendiam levantar, a grana viria molinha, molinha... Ah, para passar ao largo dos impostos - sonho dourado de todo esperto -, a grana seguia por doleiros em paraísos fiscais.
O esquema era bacana, envolvendo até escritórios de fachada na Quinta Avenida. Uma vez adiantado o dízimo (Por que será que toda instituição fraudulenta trabalha com dízimos?), o tal fundo negava o empréstimo alegando irregularidades na empresa do esperto. Como é mais fácil achar o Bordel das Normalistas do que uma empresa brasileira cem por cento limpa, não faltavam motivos para as negativas. Com as calças na mão, os espertos não tinham sequer como reaver o dinheiro, pois a remessa fora ilegal.
O esquema era tão bom que funcionou por quatro anos.
quinta-feira, 2 de junho de 2005
Falando nisso
Falando nisso
Tem dois artigos muito bons na imprensa online hoje sobre o desalentador quadro político. O primeiro, mais específico, de Ricardo A. Setti em no mínimo, chama a atenção para a manobra calhorda que um grupo de senadores petistas tentou armar em torno da CPI dos Correios. Eduardo Suplicy (SP), Christovam Buarque (DF), Serys Slhessarenko (MT), Ana Júlia Carepa (PA), Flávio Arns (PR) e Paulo Paim (RS) firmaram um acordo pelo qual assinariam o requerimento da CPI, mas só no último instante e se o governo conseguisse evitar a instalação. Posariam de paladinos da moralidade sem, efetivamente, terem contribuído para isso.
A cachorrada não deu certo porque Suplicy se antecipou e assinou o requerimento quando o governo ainda tentava comprar parlamentares. Foi criticado por Christovam e já se fala que o PT, em vingança, pode negar-lhe a vaga para concorrer à reeleição, em favor do aliado Orestes Quércia, cujos padrões éticos estão em maior sintonia com o governo, obviamente.
O segundo artigo, mais amplo, é de Hélio Schwartsman e está na Folha Online. Trata, fundamentalmente do ocaso do PT e da constatação de que o partido nunca teve de fato um projeto político para o país. Ao chegar no poder, repete (com menos eficiência) os mesmos vícios dos governos anteriores, o mesmo loteamento do governo para partidos que em vez de programa têm prontuário, o mesmo desprezo pelos compromissos éticos e históricos etc.
O agravante é que o atual governo foi eleito (inclusive por mim, devo lamentar) na esperança de mudar, ainda que minimamente, esse quadro. Ver Lula chamando Roberto Jefferson de parceiro e aliciando o PP de Maluf para evitar uma investigação sobre o PTB do mesmo Jefferson é algo que eu nunca esperei ver. Como lembra Schwartsman, a putrefação (o termo é meu) do PT reforça a idéia de que todo político é igual e abre caminho para o pior tipo de populismo - impossível nas ratazanas diminutivas que governam atualmente o Rio.
Tem dois artigos muito bons na imprensa online hoje sobre o desalentador quadro político. O primeiro, mais específico, de Ricardo A. Setti em no mínimo, chama a atenção para a manobra calhorda que um grupo de senadores petistas tentou armar em torno da CPI dos Correios. Eduardo Suplicy (SP), Christovam Buarque (DF), Serys Slhessarenko (MT), Ana Júlia Carepa (PA), Flávio Arns (PR) e Paulo Paim (RS) firmaram um acordo pelo qual assinariam o requerimento da CPI, mas só no último instante e se o governo conseguisse evitar a instalação. Posariam de paladinos da moralidade sem, efetivamente, terem contribuído para isso.
A cachorrada não deu certo porque Suplicy se antecipou e assinou o requerimento quando o governo ainda tentava comprar parlamentares. Foi criticado por Christovam e já se fala que o PT, em vingança, pode negar-lhe a vaga para concorrer à reeleição, em favor do aliado Orestes Quércia, cujos padrões éticos estão em maior sintonia com o governo, obviamente.
O segundo artigo, mais amplo, é de Hélio Schwartsman e está na Folha Online. Trata, fundamentalmente do ocaso do PT e da constatação de que o partido nunca teve de fato um projeto político para o país. Ao chegar no poder, repete (com menos eficiência) os mesmos vícios dos governos anteriores, o mesmo loteamento do governo para partidos que em vez de programa têm prontuário, o mesmo desprezo pelos compromissos éticos e históricos etc.
O agravante é que o atual governo foi eleito (inclusive por mim, devo lamentar) na esperança de mudar, ainda que minimamente, esse quadro. Ver Lula chamando Roberto Jefferson de parceiro e aliciando o PP de Maluf para evitar uma investigação sobre o PTB do mesmo Jefferson é algo que eu nunca esperei ver. Como lembra Schwartsman, a putrefação (o termo é meu) do PT reforça a idéia de que todo político é igual e abre caminho para o pior tipo de populismo - impossível nas ratazanas diminutivas que governam atualmente o Rio.
Só faltava essa
Só faltava essa
O Congresso dos Estados Unidos, que está longe de ser um exemplo de pensamento avançado, aprovou uma lei passando por cima da proibição de George W. Bush às pesquisas com células-tronco embrionárias. E já se articula para derrubar um eventual veto presidencial, num raro momento de união entre democratas e republicanos.
Ou seja, Lula conseguiu nomear um procurador-geral da República mais retrógrado que os políticos norte-americanos...
Aliás, entre fanáticos religiosos, nulidades administrativas e apadrinhados na cleptocracia política, a caneta do presidente anda fazendo mais estragos que os tornados.
O Congresso dos Estados Unidos, que está longe de ser um exemplo de pensamento avançado, aprovou uma lei passando por cima da proibição de George W. Bush às pesquisas com células-tronco embrionárias. E já se articula para derrubar um eventual veto presidencial, num raro momento de união entre democratas e republicanos.
Ou seja, Lula conseguiu nomear um procurador-geral da República mais retrógrado que os políticos norte-americanos...
Aliás, entre fanáticos religiosos, nulidades administrativas e apadrinhados na cleptocracia política, a caneta do presidente anda fazendo mais estragos que os tornados.
quarta-feira, 1 de junho de 2005
Cabotino é a mãe
Cabotino é a mãe
Crianças, dêem uma conferida na materinha quem emplaquei em no.minimo hoje. O tema é Revelations, um notável fan film de quarenta minutos ambientado no universo de Guerra nas Estrelas. Para uma produção de fundo de quintal financiada pelo cartão de crédito estourado do diretor, é impressionante. Não é à toa que mais de um milhão de internautas (eu incluído) já baixaram gratuitamente o filme.
De quebra, confiram a crítica do Dapieve tecendo loas ao novo CD do Audioslave. Ainda não ouvi, mas concordo. O disco de estréia da nova turma de Chris Cornell foi, na minha radical opinião, a única coisa realmente boa em termos de rock a vir dos EUA nos últimos anos.
Crianças, dêem uma conferida na materinha quem emplaquei em no.minimo hoje. O tema é Revelations, um notável fan film de quarenta minutos ambientado no universo de Guerra nas Estrelas. Para uma produção de fundo de quintal financiada pelo cartão de crédito estourado do diretor, é impressionante. Não é à toa que mais de um milhão de internautas (eu incluído) já baixaram gratuitamente o filme.
De quebra, confiram a crítica do Dapieve tecendo loas ao novo CD do Audioslave. Ainda não ouvi, mas concordo. O disco de estréia da nova turma de Chris Cornell foi, na minha radical opinião, a única coisa realmente boa em termos de rock a vir dos EUA nos últimos anos.
segunda-feira, 23 de maio de 2005
Caminho certo
Caminho certo
Descobri que há cerca de um mês o coronel Jarbas Passarinho - ministro de diversos ditadores do período pós-64 e signatário do AI-5 - escreveu um artigo no Jornal do Brasil criticando (sem citar abertamente) um artigo de Nossa História. Nessas horas eu sinto um tremendo orgulho da minha profissão.
Descobri que há cerca de um mês o coronel Jarbas Passarinho - ministro de diversos ditadores do período pós-64 e signatário do AI-5 - escreveu um artigo no Jornal do Brasil criticando (sem citar abertamente) um artigo de Nossa História. Nessas horas eu sinto um tremendo orgulho da minha profissão.
quinta-feira, 19 de maio de 2005
segunda-feira, 16 de maio de 2005
Velha surda americana
Velha surda americana
Esse caso de Guarapari me lembrou os processos contra roqueiros nos anos 80 por conta de suicídios de fãs. O scritp era sempre o mesmo: algum guri com seriíssimos problemas psicológicos metia uma bala nas idéias, e a família, disposta a tudo para livrar a própria cara de qualquer responsabilidade, dizia que algum roqueiro satanista tinha induzido seu bebezinho a se matar. De quebra, processavam o infeliz para arrancar uns milhõezinhos de dólares.
Scorpions e Judas Priest sofreram processos desse tipo, mas o caso mais rumoroso envolveu Ozzy Osbourne. Em outubro de 1984, John McCollun, rapaz de 19 anos, matou-se ouvindo o disco Blizzard of Ozz. A família contratou o advogado Thomas Anderson, que processou o cantor alegando que a faixa "Suicide solution" fizera o rapaz estourar os miolos.
Aí começa a parte divertida. A tradução correta de "Suicide solution" é "Mistura suicida", não "Solução suicida". Ela fala de como o álcool pode acabar com uma pessoa e se refere a Bon Scott, vocalista do AC-DC, que bebeu até desmaiar no carro numa noite de inverno, morrendo de hipotermia. Se o título pode ter duplo sentido, a letra é bem explícita.
Anderson alegou - e apresentou o laudo de um certo Instituto de Pesquisas Bio-Acústicas (IBAR) para provar - que Ozzy incluíra na música uma mensagem subliminar que dizia "Shoot, shoot, get the gun, get the gun" ("Atire, atire, pegue a arma, pegue a arma"). A técnica usada tornaria a pessoa sugestionável à mensagem; no caso, a dar um tiro na cabeça. Por que só o pobre John foi afetado entre os milhões de pessoas que ouviram a canção (inclusive este que vos digita) era uma pergunta que Mr. Anderson preferia evitar.
A acusação, claro, caiu de madura. Ozzy foi absolvido em três processos. A tese de mensagem subliminar não resistiu à contestação no tribunal. Aliás, não sei que fim o tal IBAR levou, mas hoje as únicas referências a ele na Internet estão em sites sobre este caso.
O fim do processo não foi, pelo menos para Anderson, o fim da história. Durante anos ele capitalizou o caso. Numa entrevista, reproduzida no DVD de Ozzy Don't blame me, ele disse que foi a um show do cantor. "Não vi um sorriso", disse - era um show de Ozzy, não de Jerry Lewis, doutor. E insistiu nas mensagens subliminares, agora falando que a canção "Paranoid", gravada por Ozzy ainda como vocalista do Black Sabbath dizia: "I tell you to end you life, I wish I could but it's too late" ("Eu te mando acabar com a sua vida, queria poder mas é tarde demais"). Anderson bem que poderia substituir o saudoso Roni Rios no quadro da Velha Surda, pois a canção diz claramente: "I tell you to enjoy life" (Eu mando aproveitar a vida").
Mas o próprio Ozzy deu-lhe um refresco, contando que durante anos achou que Jimi Hendrix fosse viado. O motivo? Entendia "Excuse me, while I kiss the sky" ("Dá licença, enquanto eu beijo o céu") da canção psicodélica-chapadona "Purple haze", como "Excuse me, wanna kiss this guy" ("Dá licença, quero beijar esse cara"). Na certa foi muita cocaína.
Esse caso de Guarapari me lembrou os processos contra roqueiros nos anos 80 por conta de suicídios de fãs. O scritp era sempre o mesmo: algum guri com seriíssimos problemas psicológicos metia uma bala nas idéias, e a família, disposta a tudo para livrar a própria cara de qualquer responsabilidade, dizia que algum roqueiro satanista tinha induzido seu bebezinho a se matar. De quebra, processavam o infeliz para arrancar uns milhõezinhos de dólares.
Scorpions e Judas Priest sofreram processos desse tipo, mas o caso mais rumoroso envolveu Ozzy Osbourne. Em outubro de 1984, John McCollun, rapaz de 19 anos, matou-se ouvindo o disco Blizzard of Ozz. A família contratou o advogado Thomas Anderson, que processou o cantor alegando que a faixa "Suicide solution" fizera o rapaz estourar os miolos.
Aí começa a parte divertida. A tradução correta de "Suicide solution" é "Mistura suicida", não "Solução suicida". Ela fala de como o álcool pode acabar com uma pessoa e se refere a Bon Scott, vocalista do AC-DC, que bebeu até desmaiar no carro numa noite de inverno, morrendo de hipotermia. Se o título pode ter duplo sentido, a letra é bem explícita.
Anderson alegou - e apresentou o laudo de um certo Instituto de Pesquisas Bio-Acústicas (IBAR) para provar - que Ozzy incluíra na música uma mensagem subliminar que dizia "Shoot, shoot, get the gun, get the gun" ("Atire, atire, pegue a arma, pegue a arma"). A técnica usada tornaria a pessoa sugestionável à mensagem; no caso, a dar um tiro na cabeça. Por que só o pobre John foi afetado entre os milhões de pessoas que ouviram a canção (inclusive este que vos digita) era uma pergunta que Mr. Anderson preferia evitar.
A acusação, claro, caiu de madura. Ozzy foi absolvido em três processos. A tese de mensagem subliminar não resistiu à contestação no tribunal. Aliás, não sei que fim o tal IBAR levou, mas hoje as únicas referências a ele na Internet estão em sites sobre este caso.
O fim do processo não foi, pelo menos para Anderson, o fim da história. Durante anos ele capitalizou o caso. Numa entrevista, reproduzida no DVD de Ozzy Don't blame me, ele disse que foi a um show do cantor. "Não vi um sorriso", disse - era um show de Ozzy, não de Jerry Lewis, doutor. E insistiu nas mensagens subliminares, agora falando que a canção "Paranoid", gravada por Ozzy ainda como vocalista do Black Sabbath dizia: "I tell you to end you life, I wish I could but it's too late" ("Eu te mando acabar com a sua vida, queria poder mas é tarde demais"). Anderson bem que poderia substituir o saudoso Roni Rios no quadro da Velha Surda, pois a canção diz claramente: "I tell you to enjoy life" (Eu mando aproveitar a vida").
Mas o próprio Ozzy deu-lhe um refresco, contando que durante anos achou que Jimi Hendrix fosse viado. O motivo? Entendia "Excuse me, while I kiss the sky" ("Dá licença, enquanto eu beijo o céu") da canção psicodélica-chapadona "Purple haze", como "Excuse me, wanna kiss this guy" ("Dá licença, quero beijar esse cara"). Na certa foi muita cocaína.
Desculpas, desculpas...
Desculpas, desculpas...
Dois psicopatas assassinaram uma família em Guarapari (ES), roubaram pertences e dinheiro e jogaram a culpa no RPG que disputavam com a vítima. Bastou para que os boçais de sempre voltassem suas baterias contra o jogo, falando mesmo em proibição. Milhares de jovens (e não tão jovens assim) se divertem no Brasil com uma atividade que estimula leitura e imaginação, mas basta aparecerem dois anormais para o jogo virar estímulo à matança.
Vamos combinar uma coisa, então, da próxima vez que um maluco - como aquele pedófilo infanticida que atacou no Rio há alguns anos - cometer um crime dizendo ter sido inspirado por algum versículo particularmente sangrento ou pela pregação de um pastor, a gente proíbe a Bíblia. Pode ser?
Dois psicopatas assassinaram uma família em Guarapari (ES), roubaram pertences e dinheiro e jogaram a culpa no RPG que disputavam com a vítima. Bastou para que os boçais de sempre voltassem suas baterias contra o jogo, falando mesmo em proibição. Milhares de jovens (e não tão jovens assim) se divertem no Brasil com uma atividade que estimula leitura e imaginação, mas basta aparecerem dois anormais para o jogo virar estímulo à matança.
Vamos combinar uma coisa, então, da próxima vez que um maluco - como aquele pedófilo infanticida que atacou no Rio há alguns anos - cometer um crime dizendo ter sido inspirado por algum versículo particularmente sangrento ou pela pregação de um pastor, a gente proíbe a Bíblia. Pode ser?
Total what?
Total what?
É duro admitir, mas impossível negar. Eu sou geek. Pior, Total Geek. Clique aqui, faça o teste e veja se você também se enquadra.
Cortesia da minha querida Claudia Manes
É duro admitir, mas impossível negar. Eu sou geek. Pior, Total Geek. Clique aqui, faça o teste e veja se você também se enquadra.
Cortesia da minha querida Claudia Manes
quarta-feira, 11 de maio de 2005
Repita: baixo tem quatro cordas
Repita: baixo tem quatro cordas
Há muito, muito tempo, aqui mesmo nesta galáxia, eu estagiava no Globo quando uma colega de redação veio me mostrar uma matéria que ela estava fazendo sobre músicos de rua no Centro do Rio. Falava que o carro-chefe do repertório de um guitarrista era a canção "Stairway to Heaven", dos Rolling Stones. Claro que eu corrigi, informando que a música era do Led Zeppelin.
Um repórter de geral não precisa entender profundamente de música, de economia ou de esportes. Quando se vê diante de uma informação sobre um assunto que não domina, tem obrigação de checar com que entende. Essa lição antiga foi esquecida hoje pela normalmente cuidadosa Geral do Globo.
Na matéria sobre o show dos Rolling Stones no Rio, diz que o grupo fez um show surpresa na entrevista coletiva com dois baixistas: Darryl Jones e Ron Wood - que, aliás, virou Woods na chamada da página 2. Wood realmente tocou baixo... em 1968, no disco Truth, de Jeff Beck. Desde então é guitarrista. Uma checada rápida com o Segundo Caderno teria evitado o erro - agravado pelo fato de Wood aparecer na foto que ilustra o texto tocando uma guitarra, não um baixo.
Há muito, muito tempo, aqui mesmo nesta galáxia, eu estagiava no Globo quando uma colega de redação veio me mostrar uma matéria que ela estava fazendo sobre músicos de rua no Centro do Rio. Falava que o carro-chefe do repertório de um guitarrista era a canção "Stairway to Heaven", dos Rolling Stones. Claro que eu corrigi, informando que a música era do Led Zeppelin.
Um repórter de geral não precisa entender profundamente de música, de economia ou de esportes. Quando se vê diante de uma informação sobre um assunto que não domina, tem obrigação de checar com que entende. Essa lição antiga foi esquecida hoje pela normalmente cuidadosa Geral do Globo.
Na matéria sobre o show dos Rolling Stones no Rio, diz que o grupo fez um show surpresa na entrevista coletiva com dois baixistas: Darryl Jones e Ron Wood - que, aliás, virou Woods na chamada da página 2. Wood realmente tocou baixo... em 1968, no disco Truth, de Jeff Beck. Desde então é guitarrista. Uma checada rápida com o Segundo Caderno teria evitado o erro - agravado pelo fato de Wood aparecer na foto que ilustra o texto tocando uma guitarra, não um baixo.
terça-feira, 10 de maio de 2005
Em resumo... maluquetes
Em resumo... maluquetes
Conta meu pai que, durante uma palestra do saudoso Darcy Ribeiro no início dos anos 60, um estudante com pinta de porta-estandarte da TFP pediu um aparte e começou dizendo que era "um conservador", ao que o professor, cortante como sempre, replicou: "Só se for de fralda. E você lá tem idade pra ser conservador? Não viveu nada, vai conservar o quê?"
Tenho que confessar que nunca entendi exatamente o pensamento conservador, melhor dizendo, o pensamento dos conservadores. Não é que não entenda os postulados teóricos - não concordo, mas entendo. Também não tenho problemas em compreender os motivos para uma pessoa rica ou de classe média alta ser conservadora; afinal, é do interesse dela manter o conjunto de fatores que lhe permitiu a riqueza. O que não me entra na cabeça é o fascínio que esse tipo de pensamento exerce sobre pessoas que, invariavelmente, acabam prejudicadas quanto tais idéias são postas em prática.
Isso aqui no Brasil. Nos EUA, de onde importamos praticamente tudo que não presta, a coisa é ainda mais grave. Em seu livro What's the matter with Kansas? (Qual o problema com o Kansas?), o escritor Thomas Frank relata como a visão política da classe média norte-americana se descolou de seus problemas cotidianos. Ele lembra como, nos últimos trinta anos, a política dos EUA se tornou mais conservadora graças ao voto da classe média (assalariados e pequenos empresários), justamente o setor que mais perdeu em termos materiais com esse conservadorismo político. "Você pode ver o paradoxo na rua principal de qualquer cidadezinha no interior dos EUA. Avisos de que a loja está fechando dividem a vitrine com cartazes de apoio a George W. Bush", conta Frank.
Hoje, na revista virtual Slate, o articulista Timothy Noah dá conta de uma possível explicação (ainda que acabe não concordando): Os conservadores podem, simplesmente, não bater bem da bola. A conclusão está num estudo publicado há dois anos por pesquisadores de três universidades norte-americanas, entrevistando 22.818 pessoas em doze países.
Political conservatism as motivated social cognition (Conservadorismo político como percepção social motivada) identifica uma série de variáveis psicológicas associadas ao conservadorismo político. Segundo os autores, pessoas de níveis sociais mais baixos tendem a abraçar ideologias de direita diante de medo, ansiedade, dissonância, incerteza e instabilidade. O processo, aliás, acontece também em regimes totalitários de esquerda - que se tornam conservadores, no sentido de resistirem a mudanças. "Muitos esquerdistas em regimes totalitários comunistas exibiam a mesma rigidez de pensamento e outras características psicológicas que seriam, em outro contexto, associadas a direitistas", dizem.
Um dos conceitos mais interessantes com os quais trabalham é a "intolerância com a ambigüidade", que caracteriza uma visão dicotômica rígida em relação a tudo. Lembro-me que, na faculdade, um professor nos fez analisar a série de TV americana Wiseguy, que aqui foi exibida como O homem da Máfia. Nela, um agente do FBI era infiltrado numa família mafiosa para levantar provas contra o capo. Por envolver capítulos e não episódios, a série permitiu desenvolver melhor o perfil psicológico dos personagens. Isso, somado ao fato de se passar prioritariamente dentro da quadrilha, resultou em mafiosos que, embora fossem criminosos cruéis, tinham relações de amizade, carinho pela família etc. Durou quatro anos, a despeito de níveis de audiência nunca melhores que medianos. Na análise de críticos e teóricos, seus personagens multifacetados incomodavam o público conservador, que gosta de bandidos dando tiro em cachorro e batendo na mãe.
Outro conceito que vale olhar é o gerenciamento do terror. Diante de uma situação - real ou imaginária - que represente medo, o conservador tende a se agarrar a seus valores e a rejeitar outras visões. O terror, no caso, não se refere simplesmente ao medo da morte ou de uma violência física, mas ao medo do "outro", de tudo que possa ser diferente da visão de mundo do indivíduo. Daí o racismo, a xenofobia e a homofobia que, em diferentes níveis, permeiam o pensamento conservador em todo o mundo.
Sinceramente, acho que Noah descartou as conclusões do estudo baseado numa leitura muito preguiçosa. Em momento nenhum o texto diz, como ele dá a entender, que conservadores ou pessoas de classe média têm mais medo da morte que outras. O que está em questão é como esse medo é processado psicologicamente e como se reflete na visão de mundo dessas pessoas.
De qualquer forma, a idéia de que o conservadorismo tenha um componente psico-patológico abre caminho para uma esperança: a de que ele tenha cura.
Em tempo: Os americanos usam uma linguagem muito peculiar na política, que não se aplica em nenhum outro lugar do mundo. "Radical" significa "extremo-esquerdista", ainda que Bush seja um sujeito extremamente radical. "Liberal", que em qualquer outro lugar se aplica adeptos do liberalismo econômico, lá quer dizer "esquerdista" ou "centro-esquerdista". Os "conservadores" norte-americanos englobam liberais (economicamente falando), conservadores propriamente ditos, especialmente em assuntos religiosos e morais, e até anarquistas de direita - só nos EUA pra inventarem um troço desses...
Conta meu pai que, durante uma palestra do saudoso Darcy Ribeiro no início dos anos 60, um estudante com pinta de porta-estandarte da TFP pediu um aparte e começou dizendo que era "um conservador", ao que o professor, cortante como sempre, replicou: "Só se for de fralda. E você lá tem idade pra ser conservador? Não viveu nada, vai conservar o quê?"
Tenho que confessar que nunca entendi exatamente o pensamento conservador, melhor dizendo, o pensamento dos conservadores. Não é que não entenda os postulados teóricos - não concordo, mas entendo. Também não tenho problemas em compreender os motivos para uma pessoa rica ou de classe média alta ser conservadora; afinal, é do interesse dela manter o conjunto de fatores que lhe permitiu a riqueza. O que não me entra na cabeça é o fascínio que esse tipo de pensamento exerce sobre pessoas que, invariavelmente, acabam prejudicadas quanto tais idéias são postas em prática.
Isso aqui no Brasil. Nos EUA, de onde importamos praticamente tudo que não presta, a coisa é ainda mais grave. Em seu livro What's the matter with Kansas? (Qual o problema com o Kansas?), o escritor Thomas Frank relata como a visão política da classe média norte-americana se descolou de seus problemas cotidianos. Ele lembra como, nos últimos trinta anos, a política dos EUA se tornou mais conservadora graças ao voto da classe média (assalariados e pequenos empresários), justamente o setor que mais perdeu em termos materiais com esse conservadorismo político. "Você pode ver o paradoxo na rua principal de qualquer cidadezinha no interior dos EUA. Avisos de que a loja está fechando dividem a vitrine com cartazes de apoio a George W. Bush", conta Frank.
Hoje, na revista virtual Slate, o articulista Timothy Noah dá conta de uma possível explicação (ainda que acabe não concordando): Os conservadores podem, simplesmente, não bater bem da bola. A conclusão está num estudo publicado há dois anos por pesquisadores de três universidades norte-americanas, entrevistando 22.818 pessoas em doze países.
Political conservatism as motivated social cognition (Conservadorismo político como percepção social motivada) identifica uma série de variáveis psicológicas associadas ao conservadorismo político. Segundo os autores, pessoas de níveis sociais mais baixos tendem a abraçar ideologias de direita diante de medo, ansiedade, dissonância, incerteza e instabilidade. O processo, aliás, acontece também em regimes totalitários de esquerda - que se tornam conservadores, no sentido de resistirem a mudanças. "Muitos esquerdistas em regimes totalitários comunistas exibiam a mesma rigidez de pensamento e outras características psicológicas que seriam, em outro contexto, associadas a direitistas", dizem.
Um dos conceitos mais interessantes com os quais trabalham é a "intolerância com a ambigüidade", que caracteriza uma visão dicotômica rígida em relação a tudo. Lembro-me que, na faculdade, um professor nos fez analisar a série de TV americana Wiseguy, que aqui foi exibida como O homem da Máfia. Nela, um agente do FBI era infiltrado numa família mafiosa para levantar provas contra o capo. Por envolver capítulos e não episódios, a série permitiu desenvolver melhor o perfil psicológico dos personagens. Isso, somado ao fato de se passar prioritariamente dentro da quadrilha, resultou em mafiosos que, embora fossem criminosos cruéis, tinham relações de amizade, carinho pela família etc. Durou quatro anos, a despeito de níveis de audiência nunca melhores que medianos. Na análise de críticos e teóricos, seus personagens multifacetados incomodavam o público conservador, que gosta de bandidos dando tiro em cachorro e batendo na mãe.
Outro conceito que vale olhar é o gerenciamento do terror. Diante de uma situação - real ou imaginária - que represente medo, o conservador tende a se agarrar a seus valores e a rejeitar outras visões. O terror, no caso, não se refere simplesmente ao medo da morte ou de uma violência física, mas ao medo do "outro", de tudo que possa ser diferente da visão de mundo do indivíduo. Daí o racismo, a xenofobia e a homofobia que, em diferentes níveis, permeiam o pensamento conservador em todo o mundo.
Sinceramente, acho que Noah descartou as conclusões do estudo baseado numa leitura muito preguiçosa. Em momento nenhum o texto diz, como ele dá a entender, que conservadores ou pessoas de classe média têm mais medo da morte que outras. O que está em questão é como esse medo é processado psicologicamente e como se reflete na visão de mundo dessas pessoas.
De qualquer forma, a idéia de que o conservadorismo tenha um componente psico-patológico abre caminho para uma esperança: a de que ele tenha cura.
Em tempo: Os americanos usam uma linguagem muito peculiar na política, que não se aplica em nenhum outro lugar do mundo. "Radical" significa "extremo-esquerdista", ainda que Bush seja um sujeito extremamente radical. "Liberal", que em qualquer outro lugar se aplica adeptos do liberalismo econômico, lá quer dizer "esquerdista" ou "centro-esquerdista". Os "conservadores" norte-americanos englobam liberais (economicamente falando), conservadores propriamente ditos, especialmente em assuntos religiosos e morais, e até anarquistas de direita - só nos EUA pra inventarem um troço desses...
quinta-feira, 5 de maio de 2005
Apocalipse revisado
Apocalipse revisado
Sabe aquele seu primo aborrecente revoltado-com-o-mundo e fã de Doom Metal que tatuou um 666 no peito pra chocar as tias nas festinhas de família? Parece que ele vai ter de voltar ao tatuador...
Diz hoje o jornal inglês Independent que o Número da Besta, citado no Livro das Revelações (13:18), seria 616 e não 666. Cientistas teriam decifrado o que seria um pequeno fragmento da mais antiga cópia do Apocalipse, escrita em grego arcaico no final do século III E.A., e deram de cara com o novo número.
Na verdade, o 616 não é exatamente inédito. Ele aparecia em outras poucas cópias, mas historiadores atribuíam-no a erros de copistas. A diferença desta vez está na idade do manuscrito. Embora os livros do Novo Testamento sejam atribuídos a apóstolos e cristãos primevos, não existem cópias que datem daquele período. O Apocalipse, por exemplo, é atribuído ao apóstolo João. Sendo contemporâneo de Jesus, qualquer texto seu teria, obrigatoriamente de ser escrito até, digamos, o terceiro quarto do século I. Entretanto, o fragmento em questão, datado de duzentos anos depois, seria a cópia mais antiga. O tal "erro de copistas" poderia, perfeitamente, ser o 666, então.
Ouvido pelo Independent, o professor David Parker, da Universidade de Birmingham (Inglaterra), disse que os números são resultados de gematria, um sistema que atribui valores numéricos a letras. Dessa forma, 616 se referiria ao imperador Calígula, que reinou de 37 a 41 E.A. Não deixa de ser uma referência curiosa, uma vez que Calígula, embora tenha aprontado muitas, não ficou famoso com perseguidor de cristãos.
De qualquer forma, vai ser curioso ver Bruce Dickinson cantar "Six, one, six, the number of the beast"...
Veja aqui o fragmento, encontrado junto com outros restos arqueológicos no Egito:
Sabe aquele seu primo aborrecente revoltado-com-o-mundo e fã de Doom Metal que tatuou um 666 no peito pra chocar as tias nas festinhas de família? Parece que ele vai ter de voltar ao tatuador...
Diz hoje o jornal inglês Independent que o Número da Besta, citado no Livro das Revelações (13:18), seria 616 e não 666. Cientistas teriam decifrado o que seria um pequeno fragmento da mais antiga cópia do Apocalipse, escrita em grego arcaico no final do século III E.A., e deram de cara com o novo número.
Na verdade, o 616 não é exatamente inédito. Ele aparecia em outras poucas cópias, mas historiadores atribuíam-no a erros de copistas. A diferença desta vez está na idade do manuscrito. Embora os livros do Novo Testamento sejam atribuídos a apóstolos e cristãos primevos, não existem cópias que datem daquele período. O Apocalipse, por exemplo, é atribuído ao apóstolo João. Sendo contemporâneo de Jesus, qualquer texto seu teria, obrigatoriamente de ser escrito até, digamos, o terceiro quarto do século I. Entretanto, o fragmento em questão, datado de duzentos anos depois, seria a cópia mais antiga. O tal "erro de copistas" poderia, perfeitamente, ser o 666, então.
Ouvido pelo Independent, o professor David Parker, da Universidade de Birmingham (Inglaterra), disse que os números são resultados de gematria, um sistema que atribui valores numéricos a letras. Dessa forma, 616 se referiria ao imperador Calígula, que reinou de 37 a 41 E.A. Não deixa de ser uma referência curiosa, uma vez que Calígula, embora tenha aprontado muitas, não ficou famoso com perseguidor de cristãos.
De qualquer forma, vai ser curioso ver Bruce Dickinson cantar "Six, one, six, the number of the beast"...
Veja aqui o fragmento, encontrado junto com outros restos arqueológicos no Egito:
segunda-feira, 2 de maio de 2005
Presidente Alencar
Presidente Alencar
Recebi uma informação estarrecedora. O vice-presidente José Alencar estaria se preparando para assumir a Presidência da República. O motivo está numa entrevista concedida pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva à revista Caros Amigos em novembro de 2000, dois anos antes de ser eleito para o cargo atual. Confiram o que ele disse:
"Se eu ganhasse a Presidência para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo, preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar vergonha. Porque, sabe o que acontece? Tem muita gente que tem direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho. Há uma coisa que tenho como sagrada: é não perder o direito de olhar nos olhos de meus companheiros e de dormir com a consciência tranqüila de que a gente é capaz de cumprir cada palavra que a gente assume. E, quando não as cumprir, ter coragem de discutir por que não cumpriu".
Ou seja, na hora que Deus der uma conferida no que acontece por aqui, Lula empacota no ato.
Recebi uma informação estarrecedora. O vice-presidente José Alencar estaria se preparando para assumir a Presidência da República. O motivo está numa entrevista concedida pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva à revista Caros Amigos em novembro de 2000, dois anos antes de ser eleito para o cargo atual. Confiram o que ele disse:
"Se eu ganhasse a Presidência para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo, preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar vergonha. Porque, sabe o que acontece? Tem muita gente que tem direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho. Há uma coisa que tenho como sagrada: é não perder o direito de olhar nos olhos de meus companheiros e de dormir com a consciência tranqüila de que a gente é capaz de cumprir cada palavra que a gente assume. E, quando não as cumprir, ter coragem de discutir por que não cumpriu".
Ou seja, na hora que Deus der uma conferida no que acontece por aqui, Lula empacota no ato.