Caminho certo
Descobri que há cerca de um mês o coronel Jarbas Passarinho - ministro de diversos ditadores do período pós-64 e signatário do AI-5 - escreveu um artigo no Jornal do Brasil criticando (sem citar abertamente) um artigo de Nossa História. Nessas horas eu sinto um tremendo orgulho da minha profissão.
Espaço onde o jornalista Leonardo Pimentel pode se dedicar a falar mal do que bem entender.
Aviso
Apesar de criado por um jornalista, este blog não é nem pretende ser imparcial. Ele reflete minhas opiniões, meus gostos, desgostos, preconceitos e pós-conceitos. Se alguém se sentir ofendido, "paciência"...
Se quiser, mande-me um e-mail
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segunda-feira, 23 de maio de 2005
quinta-feira, 19 de maio de 2005
segunda-feira, 16 de maio de 2005
Velha surda americana
Velha surda americana
Esse caso de Guarapari me lembrou os processos contra roqueiros nos anos 80 por conta de suicídios de fãs. O scritp era sempre o mesmo: algum guri com seriíssimos problemas psicológicos metia uma bala nas idéias, e a família, disposta a tudo para livrar a própria cara de qualquer responsabilidade, dizia que algum roqueiro satanista tinha induzido seu bebezinho a se matar. De quebra, processavam o infeliz para arrancar uns milhõezinhos de dólares.
Scorpions e Judas Priest sofreram processos desse tipo, mas o caso mais rumoroso envolveu Ozzy Osbourne. Em outubro de 1984, John McCollun, rapaz de 19 anos, matou-se ouvindo o disco Blizzard of Ozz. A família contratou o advogado Thomas Anderson, que processou o cantor alegando que a faixa "Suicide solution" fizera o rapaz estourar os miolos.
Aí começa a parte divertida. A tradução correta de "Suicide solution" é "Mistura suicida", não "Solução suicida". Ela fala de como o álcool pode acabar com uma pessoa e se refere a Bon Scott, vocalista do AC-DC, que bebeu até desmaiar no carro numa noite de inverno, morrendo de hipotermia. Se o título pode ter duplo sentido, a letra é bem explícita.
Anderson alegou - e apresentou o laudo de um certo Instituto de Pesquisas Bio-Acústicas (IBAR) para provar - que Ozzy incluíra na música uma mensagem subliminar que dizia "Shoot, shoot, get the gun, get the gun" ("Atire, atire, pegue a arma, pegue a arma"). A técnica usada tornaria a pessoa sugestionável à mensagem; no caso, a dar um tiro na cabeça. Por que só o pobre John foi afetado entre os milhões de pessoas que ouviram a canção (inclusive este que vos digita) era uma pergunta que Mr. Anderson preferia evitar.
A acusação, claro, caiu de madura. Ozzy foi absolvido em três processos. A tese de mensagem subliminar não resistiu à contestação no tribunal. Aliás, não sei que fim o tal IBAR levou, mas hoje as únicas referências a ele na Internet estão em sites sobre este caso.
O fim do processo não foi, pelo menos para Anderson, o fim da história. Durante anos ele capitalizou o caso. Numa entrevista, reproduzida no DVD de Ozzy Don't blame me, ele disse que foi a um show do cantor. "Não vi um sorriso", disse - era um show de Ozzy, não de Jerry Lewis, doutor. E insistiu nas mensagens subliminares, agora falando que a canção "Paranoid", gravada por Ozzy ainda como vocalista do Black Sabbath dizia: "I tell you to end you life, I wish I could but it's too late" ("Eu te mando acabar com a sua vida, queria poder mas é tarde demais"). Anderson bem que poderia substituir o saudoso Roni Rios no quadro da Velha Surda, pois a canção diz claramente: "I tell you to enjoy life" (Eu mando aproveitar a vida").
Mas o próprio Ozzy deu-lhe um refresco, contando que durante anos achou que Jimi Hendrix fosse viado. O motivo? Entendia "Excuse me, while I kiss the sky" ("Dá licença, enquanto eu beijo o céu") da canção psicodélica-chapadona "Purple haze", como "Excuse me, wanna kiss this guy" ("Dá licença, quero beijar esse cara"). Na certa foi muita cocaína.
Esse caso de Guarapari me lembrou os processos contra roqueiros nos anos 80 por conta de suicídios de fãs. O scritp era sempre o mesmo: algum guri com seriíssimos problemas psicológicos metia uma bala nas idéias, e a família, disposta a tudo para livrar a própria cara de qualquer responsabilidade, dizia que algum roqueiro satanista tinha induzido seu bebezinho a se matar. De quebra, processavam o infeliz para arrancar uns milhõezinhos de dólares.
Scorpions e Judas Priest sofreram processos desse tipo, mas o caso mais rumoroso envolveu Ozzy Osbourne. Em outubro de 1984, John McCollun, rapaz de 19 anos, matou-se ouvindo o disco Blizzard of Ozz. A família contratou o advogado Thomas Anderson, que processou o cantor alegando que a faixa "Suicide solution" fizera o rapaz estourar os miolos.
Aí começa a parte divertida. A tradução correta de "Suicide solution" é "Mistura suicida", não "Solução suicida". Ela fala de como o álcool pode acabar com uma pessoa e se refere a Bon Scott, vocalista do AC-DC, que bebeu até desmaiar no carro numa noite de inverno, morrendo de hipotermia. Se o título pode ter duplo sentido, a letra é bem explícita.
Anderson alegou - e apresentou o laudo de um certo Instituto de Pesquisas Bio-Acústicas (IBAR) para provar - que Ozzy incluíra na música uma mensagem subliminar que dizia "Shoot, shoot, get the gun, get the gun" ("Atire, atire, pegue a arma, pegue a arma"). A técnica usada tornaria a pessoa sugestionável à mensagem; no caso, a dar um tiro na cabeça. Por que só o pobre John foi afetado entre os milhões de pessoas que ouviram a canção (inclusive este que vos digita) era uma pergunta que Mr. Anderson preferia evitar.
A acusação, claro, caiu de madura. Ozzy foi absolvido em três processos. A tese de mensagem subliminar não resistiu à contestação no tribunal. Aliás, não sei que fim o tal IBAR levou, mas hoje as únicas referências a ele na Internet estão em sites sobre este caso.
O fim do processo não foi, pelo menos para Anderson, o fim da história. Durante anos ele capitalizou o caso. Numa entrevista, reproduzida no DVD de Ozzy Don't blame me, ele disse que foi a um show do cantor. "Não vi um sorriso", disse - era um show de Ozzy, não de Jerry Lewis, doutor. E insistiu nas mensagens subliminares, agora falando que a canção "Paranoid", gravada por Ozzy ainda como vocalista do Black Sabbath dizia: "I tell you to end you life, I wish I could but it's too late" ("Eu te mando acabar com a sua vida, queria poder mas é tarde demais"). Anderson bem que poderia substituir o saudoso Roni Rios no quadro da Velha Surda, pois a canção diz claramente: "I tell you to enjoy life" (Eu mando aproveitar a vida").
Mas o próprio Ozzy deu-lhe um refresco, contando que durante anos achou que Jimi Hendrix fosse viado. O motivo? Entendia "Excuse me, while I kiss the sky" ("Dá licença, enquanto eu beijo o céu") da canção psicodélica-chapadona "Purple haze", como "Excuse me, wanna kiss this guy" ("Dá licença, quero beijar esse cara"). Na certa foi muita cocaína.
Desculpas, desculpas...
Desculpas, desculpas...
Dois psicopatas assassinaram uma família em Guarapari (ES), roubaram pertences e dinheiro e jogaram a culpa no RPG que disputavam com a vítima. Bastou para que os boçais de sempre voltassem suas baterias contra o jogo, falando mesmo em proibição. Milhares de jovens (e não tão jovens assim) se divertem no Brasil com uma atividade que estimula leitura e imaginação, mas basta aparecerem dois anormais para o jogo virar estímulo à matança.
Vamos combinar uma coisa, então, da próxima vez que um maluco - como aquele pedófilo infanticida que atacou no Rio há alguns anos - cometer um crime dizendo ter sido inspirado por algum versículo particularmente sangrento ou pela pregação de um pastor, a gente proíbe a Bíblia. Pode ser?
Dois psicopatas assassinaram uma família em Guarapari (ES), roubaram pertences e dinheiro e jogaram a culpa no RPG que disputavam com a vítima. Bastou para que os boçais de sempre voltassem suas baterias contra o jogo, falando mesmo em proibição. Milhares de jovens (e não tão jovens assim) se divertem no Brasil com uma atividade que estimula leitura e imaginação, mas basta aparecerem dois anormais para o jogo virar estímulo à matança.
Vamos combinar uma coisa, então, da próxima vez que um maluco - como aquele pedófilo infanticida que atacou no Rio há alguns anos - cometer um crime dizendo ter sido inspirado por algum versículo particularmente sangrento ou pela pregação de um pastor, a gente proíbe a Bíblia. Pode ser?
Total what?
Total what?
É duro admitir, mas impossível negar. Eu sou geek. Pior, Total Geek. Clique aqui, faça o teste e veja se você também se enquadra.
Cortesia da minha querida Claudia Manes
É duro admitir, mas impossível negar. Eu sou geek. Pior, Total Geek. Clique aqui, faça o teste e veja se você também se enquadra.
Cortesia da minha querida Claudia Manes
quarta-feira, 11 de maio de 2005
Repita: baixo tem quatro cordas
Repita: baixo tem quatro cordas
Há muito, muito tempo, aqui mesmo nesta galáxia, eu estagiava no Globo quando uma colega de redação veio me mostrar uma matéria que ela estava fazendo sobre músicos de rua no Centro do Rio. Falava que o carro-chefe do repertório de um guitarrista era a canção "Stairway to Heaven", dos Rolling Stones. Claro que eu corrigi, informando que a música era do Led Zeppelin.
Um repórter de geral não precisa entender profundamente de música, de economia ou de esportes. Quando se vê diante de uma informação sobre um assunto que não domina, tem obrigação de checar com que entende. Essa lição antiga foi esquecida hoje pela normalmente cuidadosa Geral do Globo.
Na matéria sobre o show dos Rolling Stones no Rio, diz que o grupo fez um show surpresa na entrevista coletiva com dois baixistas: Darryl Jones e Ron Wood - que, aliás, virou Woods na chamada da página 2. Wood realmente tocou baixo... em 1968, no disco Truth, de Jeff Beck. Desde então é guitarrista. Uma checada rápida com o Segundo Caderno teria evitado o erro - agravado pelo fato de Wood aparecer na foto que ilustra o texto tocando uma guitarra, não um baixo.
Há muito, muito tempo, aqui mesmo nesta galáxia, eu estagiava no Globo quando uma colega de redação veio me mostrar uma matéria que ela estava fazendo sobre músicos de rua no Centro do Rio. Falava que o carro-chefe do repertório de um guitarrista era a canção "Stairway to Heaven", dos Rolling Stones. Claro que eu corrigi, informando que a música era do Led Zeppelin.
Um repórter de geral não precisa entender profundamente de música, de economia ou de esportes. Quando se vê diante de uma informação sobre um assunto que não domina, tem obrigação de checar com que entende. Essa lição antiga foi esquecida hoje pela normalmente cuidadosa Geral do Globo.
Na matéria sobre o show dos Rolling Stones no Rio, diz que o grupo fez um show surpresa na entrevista coletiva com dois baixistas: Darryl Jones e Ron Wood - que, aliás, virou Woods na chamada da página 2. Wood realmente tocou baixo... em 1968, no disco Truth, de Jeff Beck. Desde então é guitarrista. Uma checada rápida com o Segundo Caderno teria evitado o erro - agravado pelo fato de Wood aparecer na foto que ilustra o texto tocando uma guitarra, não um baixo.
terça-feira, 10 de maio de 2005
Em resumo... maluquetes
Em resumo... maluquetes
Conta meu pai que, durante uma palestra do saudoso Darcy Ribeiro no início dos anos 60, um estudante com pinta de porta-estandarte da TFP pediu um aparte e começou dizendo que era "um conservador", ao que o professor, cortante como sempre, replicou: "Só se for de fralda. E você lá tem idade pra ser conservador? Não viveu nada, vai conservar o quê?"
Tenho que confessar que nunca entendi exatamente o pensamento conservador, melhor dizendo, o pensamento dos conservadores. Não é que não entenda os postulados teóricos - não concordo, mas entendo. Também não tenho problemas em compreender os motivos para uma pessoa rica ou de classe média alta ser conservadora; afinal, é do interesse dela manter o conjunto de fatores que lhe permitiu a riqueza. O que não me entra na cabeça é o fascínio que esse tipo de pensamento exerce sobre pessoas que, invariavelmente, acabam prejudicadas quanto tais idéias são postas em prática.
Isso aqui no Brasil. Nos EUA, de onde importamos praticamente tudo que não presta, a coisa é ainda mais grave. Em seu livro What's the matter with Kansas? (Qual o problema com o Kansas?), o escritor Thomas Frank relata como a visão política da classe média norte-americana se descolou de seus problemas cotidianos. Ele lembra como, nos últimos trinta anos, a política dos EUA se tornou mais conservadora graças ao voto da classe média (assalariados e pequenos empresários), justamente o setor que mais perdeu em termos materiais com esse conservadorismo político. "Você pode ver o paradoxo na rua principal de qualquer cidadezinha no interior dos EUA. Avisos de que a loja está fechando dividem a vitrine com cartazes de apoio a George W. Bush", conta Frank.
Hoje, na revista virtual Slate, o articulista Timothy Noah dá conta de uma possível explicação (ainda que acabe não concordando): Os conservadores podem, simplesmente, não bater bem da bola. A conclusão está num estudo publicado há dois anos por pesquisadores de três universidades norte-americanas, entrevistando 22.818 pessoas em doze países.
Political conservatism as motivated social cognition (Conservadorismo político como percepção social motivada) identifica uma série de variáveis psicológicas associadas ao conservadorismo político. Segundo os autores, pessoas de níveis sociais mais baixos tendem a abraçar ideologias de direita diante de medo, ansiedade, dissonância, incerteza e instabilidade. O processo, aliás, acontece também em regimes totalitários de esquerda - que se tornam conservadores, no sentido de resistirem a mudanças. "Muitos esquerdistas em regimes totalitários comunistas exibiam a mesma rigidez de pensamento e outras características psicológicas que seriam, em outro contexto, associadas a direitistas", dizem.
Um dos conceitos mais interessantes com os quais trabalham é a "intolerância com a ambigüidade", que caracteriza uma visão dicotômica rígida em relação a tudo. Lembro-me que, na faculdade, um professor nos fez analisar a série de TV americana Wiseguy, que aqui foi exibida como O homem da Máfia. Nela, um agente do FBI era infiltrado numa família mafiosa para levantar provas contra o capo. Por envolver capítulos e não episódios, a série permitiu desenvolver melhor o perfil psicológico dos personagens. Isso, somado ao fato de se passar prioritariamente dentro da quadrilha, resultou em mafiosos que, embora fossem criminosos cruéis, tinham relações de amizade, carinho pela família etc. Durou quatro anos, a despeito de níveis de audiência nunca melhores que medianos. Na análise de críticos e teóricos, seus personagens multifacetados incomodavam o público conservador, que gosta de bandidos dando tiro em cachorro e batendo na mãe.
Outro conceito que vale olhar é o gerenciamento do terror. Diante de uma situação - real ou imaginária - que represente medo, o conservador tende a se agarrar a seus valores e a rejeitar outras visões. O terror, no caso, não se refere simplesmente ao medo da morte ou de uma violência física, mas ao medo do "outro", de tudo que possa ser diferente da visão de mundo do indivíduo. Daí o racismo, a xenofobia e a homofobia que, em diferentes níveis, permeiam o pensamento conservador em todo o mundo.
Sinceramente, acho que Noah descartou as conclusões do estudo baseado numa leitura muito preguiçosa. Em momento nenhum o texto diz, como ele dá a entender, que conservadores ou pessoas de classe média têm mais medo da morte que outras. O que está em questão é como esse medo é processado psicologicamente e como se reflete na visão de mundo dessas pessoas.
De qualquer forma, a idéia de que o conservadorismo tenha um componente psico-patológico abre caminho para uma esperança: a de que ele tenha cura.
Em tempo: Os americanos usam uma linguagem muito peculiar na política, que não se aplica em nenhum outro lugar do mundo. "Radical" significa "extremo-esquerdista", ainda que Bush seja um sujeito extremamente radical. "Liberal", que em qualquer outro lugar se aplica adeptos do liberalismo econômico, lá quer dizer "esquerdista" ou "centro-esquerdista". Os "conservadores" norte-americanos englobam liberais (economicamente falando), conservadores propriamente ditos, especialmente em assuntos religiosos e morais, e até anarquistas de direita - só nos EUA pra inventarem um troço desses...
Conta meu pai que, durante uma palestra do saudoso Darcy Ribeiro no início dos anos 60, um estudante com pinta de porta-estandarte da TFP pediu um aparte e começou dizendo que era "um conservador", ao que o professor, cortante como sempre, replicou: "Só se for de fralda. E você lá tem idade pra ser conservador? Não viveu nada, vai conservar o quê?"
Tenho que confessar que nunca entendi exatamente o pensamento conservador, melhor dizendo, o pensamento dos conservadores. Não é que não entenda os postulados teóricos - não concordo, mas entendo. Também não tenho problemas em compreender os motivos para uma pessoa rica ou de classe média alta ser conservadora; afinal, é do interesse dela manter o conjunto de fatores que lhe permitiu a riqueza. O que não me entra na cabeça é o fascínio que esse tipo de pensamento exerce sobre pessoas que, invariavelmente, acabam prejudicadas quanto tais idéias são postas em prática.
Isso aqui no Brasil. Nos EUA, de onde importamos praticamente tudo que não presta, a coisa é ainda mais grave. Em seu livro What's the matter with Kansas? (Qual o problema com o Kansas?), o escritor Thomas Frank relata como a visão política da classe média norte-americana se descolou de seus problemas cotidianos. Ele lembra como, nos últimos trinta anos, a política dos EUA se tornou mais conservadora graças ao voto da classe média (assalariados e pequenos empresários), justamente o setor que mais perdeu em termos materiais com esse conservadorismo político. "Você pode ver o paradoxo na rua principal de qualquer cidadezinha no interior dos EUA. Avisos de que a loja está fechando dividem a vitrine com cartazes de apoio a George W. Bush", conta Frank.
Hoje, na revista virtual Slate, o articulista Timothy Noah dá conta de uma possível explicação (ainda que acabe não concordando): Os conservadores podem, simplesmente, não bater bem da bola. A conclusão está num estudo publicado há dois anos por pesquisadores de três universidades norte-americanas, entrevistando 22.818 pessoas em doze países.
Political conservatism as motivated social cognition (Conservadorismo político como percepção social motivada) identifica uma série de variáveis psicológicas associadas ao conservadorismo político. Segundo os autores, pessoas de níveis sociais mais baixos tendem a abraçar ideologias de direita diante de medo, ansiedade, dissonância, incerteza e instabilidade. O processo, aliás, acontece também em regimes totalitários de esquerda - que se tornam conservadores, no sentido de resistirem a mudanças. "Muitos esquerdistas em regimes totalitários comunistas exibiam a mesma rigidez de pensamento e outras características psicológicas que seriam, em outro contexto, associadas a direitistas", dizem.
Um dos conceitos mais interessantes com os quais trabalham é a "intolerância com a ambigüidade", que caracteriza uma visão dicotômica rígida em relação a tudo. Lembro-me que, na faculdade, um professor nos fez analisar a série de TV americana Wiseguy, que aqui foi exibida como O homem da Máfia. Nela, um agente do FBI era infiltrado numa família mafiosa para levantar provas contra o capo. Por envolver capítulos e não episódios, a série permitiu desenvolver melhor o perfil psicológico dos personagens. Isso, somado ao fato de se passar prioritariamente dentro da quadrilha, resultou em mafiosos que, embora fossem criminosos cruéis, tinham relações de amizade, carinho pela família etc. Durou quatro anos, a despeito de níveis de audiência nunca melhores que medianos. Na análise de críticos e teóricos, seus personagens multifacetados incomodavam o público conservador, que gosta de bandidos dando tiro em cachorro e batendo na mãe.
Outro conceito que vale olhar é o gerenciamento do terror. Diante de uma situação - real ou imaginária - que represente medo, o conservador tende a se agarrar a seus valores e a rejeitar outras visões. O terror, no caso, não se refere simplesmente ao medo da morte ou de uma violência física, mas ao medo do "outro", de tudo que possa ser diferente da visão de mundo do indivíduo. Daí o racismo, a xenofobia e a homofobia que, em diferentes níveis, permeiam o pensamento conservador em todo o mundo.
Sinceramente, acho que Noah descartou as conclusões do estudo baseado numa leitura muito preguiçosa. Em momento nenhum o texto diz, como ele dá a entender, que conservadores ou pessoas de classe média têm mais medo da morte que outras. O que está em questão é como esse medo é processado psicologicamente e como se reflete na visão de mundo dessas pessoas.
De qualquer forma, a idéia de que o conservadorismo tenha um componente psico-patológico abre caminho para uma esperança: a de que ele tenha cura.
Em tempo: Os americanos usam uma linguagem muito peculiar na política, que não se aplica em nenhum outro lugar do mundo. "Radical" significa "extremo-esquerdista", ainda que Bush seja um sujeito extremamente radical. "Liberal", que em qualquer outro lugar se aplica adeptos do liberalismo econômico, lá quer dizer "esquerdista" ou "centro-esquerdista". Os "conservadores" norte-americanos englobam liberais (economicamente falando), conservadores propriamente ditos, especialmente em assuntos religiosos e morais, e até anarquistas de direita - só nos EUA pra inventarem um troço desses...
quinta-feira, 5 de maio de 2005
Apocalipse revisado
Apocalipse revisado
Sabe aquele seu primo aborrecente revoltado-com-o-mundo e fã de Doom Metal que tatuou um 666 no peito pra chocar as tias nas festinhas de família? Parece que ele vai ter de voltar ao tatuador...
Diz hoje o jornal inglês Independent que o Número da Besta, citado no Livro das Revelações (13:18), seria 616 e não 666. Cientistas teriam decifrado o que seria um pequeno fragmento da mais antiga cópia do Apocalipse, escrita em grego arcaico no final do século III E.A., e deram de cara com o novo número.
Na verdade, o 616 não é exatamente inédito. Ele aparecia em outras poucas cópias, mas historiadores atribuíam-no a erros de copistas. A diferença desta vez está na idade do manuscrito. Embora os livros do Novo Testamento sejam atribuídos a apóstolos e cristãos primevos, não existem cópias que datem daquele período. O Apocalipse, por exemplo, é atribuído ao apóstolo João. Sendo contemporâneo de Jesus, qualquer texto seu teria, obrigatoriamente de ser escrito até, digamos, o terceiro quarto do século I. Entretanto, o fragmento em questão, datado de duzentos anos depois, seria a cópia mais antiga. O tal "erro de copistas" poderia, perfeitamente, ser o 666, então.
Ouvido pelo Independent, o professor David Parker, da Universidade de Birmingham (Inglaterra), disse que os números são resultados de gematria, um sistema que atribui valores numéricos a letras. Dessa forma, 616 se referiria ao imperador Calígula, que reinou de 37 a 41 E.A. Não deixa de ser uma referência curiosa, uma vez que Calígula, embora tenha aprontado muitas, não ficou famoso com perseguidor de cristãos.
De qualquer forma, vai ser curioso ver Bruce Dickinson cantar "Six, one, six, the number of the beast"...
Veja aqui o fragmento, encontrado junto com outros restos arqueológicos no Egito:
Sabe aquele seu primo aborrecente revoltado-com-o-mundo e fã de Doom Metal que tatuou um 666 no peito pra chocar as tias nas festinhas de família? Parece que ele vai ter de voltar ao tatuador...
Diz hoje o jornal inglês Independent que o Número da Besta, citado no Livro das Revelações (13:18), seria 616 e não 666. Cientistas teriam decifrado o que seria um pequeno fragmento da mais antiga cópia do Apocalipse, escrita em grego arcaico no final do século III E.A., e deram de cara com o novo número.
Na verdade, o 616 não é exatamente inédito. Ele aparecia em outras poucas cópias, mas historiadores atribuíam-no a erros de copistas. A diferença desta vez está na idade do manuscrito. Embora os livros do Novo Testamento sejam atribuídos a apóstolos e cristãos primevos, não existem cópias que datem daquele período. O Apocalipse, por exemplo, é atribuído ao apóstolo João. Sendo contemporâneo de Jesus, qualquer texto seu teria, obrigatoriamente de ser escrito até, digamos, o terceiro quarto do século I. Entretanto, o fragmento em questão, datado de duzentos anos depois, seria a cópia mais antiga. O tal "erro de copistas" poderia, perfeitamente, ser o 666, então.
Ouvido pelo Independent, o professor David Parker, da Universidade de Birmingham (Inglaterra), disse que os números são resultados de gematria, um sistema que atribui valores numéricos a letras. Dessa forma, 616 se referiria ao imperador Calígula, que reinou de 37 a 41 E.A. Não deixa de ser uma referência curiosa, uma vez que Calígula, embora tenha aprontado muitas, não ficou famoso com perseguidor de cristãos.
De qualquer forma, vai ser curioso ver Bruce Dickinson cantar "Six, one, six, the number of the beast"...
Veja aqui o fragmento, encontrado junto com outros restos arqueológicos no Egito:
segunda-feira, 2 de maio de 2005
Presidente Alencar
Presidente Alencar
Recebi uma informação estarrecedora. O vice-presidente José Alencar estaria se preparando para assumir a Presidência da República. O motivo está numa entrevista concedida pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva à revista Caros Amigos em novembro de 2000, dois anos antes de ser eleito para o cargo atual. Confiram o que ele disse:
"Se eu ganhasse a Presidência para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo, preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar vergonha. Porque, sabe o que acontece? Tem muita gente que tem direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho. Há uma coisa que tenho como sagrada: é não perder o direito de olhar nos olhos de meus companheiros e de dormir com a consciência tranqüila de que a gente é capaz de cumprir cada palavra que a gente assume. E, quando não as cumprir, ter coragem de discutir por que não cumpriu".
Ou seja, na hora que Deus der uma conferida no que acontece por aqui, Lula empacota no ato.
Recebi uma informação estarrecedora. O vice-presidente José Alencar estaria se preparando para assumir a Presidência da República. O motivo está numa entrevista concedida pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva à revista Caros Amigos em novembro de 2000, dois anos antes de ser eleito para o cargo atual. Confiram o que ele disse:
"Se eu ganhasse a Presidência para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo, preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar vergonha. Porque, sabe o que acontece? Tem muita gente que tem direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho. Há uma coisa que tenho como sagrada: é não perder o direito de olhar nos olhos de meus companheiros e de dormir com a consciência tranqüila de que a gente é capaz de cumprir cada palavra que a gente assume. E, quando não as cumprir, ter coragem de discutir por que não cumpriu".
Ou seja, na hora que Deus der uma conferida no que acontece por aqui, Lula empacota no ato.
quinta-feira, 28 de abril de 2005
Geopolítica anal
Geopolítica anal
Um árabe decide ir a uma suruba. Transa com várias mulheres de todas as maneiras. No troca-troca, se misturam alguns homens e acaba enrabado.
No dia seguinte começa a ter agudos e constantes remorsos do bacanal e vai até a mesquita para confessar-se com o Iman e assim obter o perdão. Começa a explicar sua noite devassa: "Tomei álcool, fiz sexo com outras mulheres que não as minhas e ao final fui enrabado." O Iman diz que é extremamente grave e que se quer ser perdoado deve voltar no dia seguinte com US$ 15.000,00 para a mesquita.
O árabe sai, feliz por ter achado a solução, mas incomodado com o monte de grana que terá que doar.
Em seu caminho passa por uma Igreja Católica. Reflete que apesar de não ser sua religião, talvez possa obter uma absolvição mais em conta...
Entra e fala com o padre: "Tomei bebidas, fiz sexo com várias mulheres a fui enrabado por um cara." O padre diz que não se preocupe; mesmo não sendo católico pode ajudar a paróquia e se quiser o perdão de Deus, deve voltar com US$ 8.500,00.
O árabe sai mais aliviado por ter conseguido um desconto no preço do pecado...
Caminha um pouco mais, passa na frente de uma Sinagoga e, claro, fica tentado em ver se pode conseguir um pouco mais barato. Por que não?
Entra, procura o rabino e conta-lhe que se bem que não seja judeu, ali está na sinagoga porque teve uma noite de orgia, bebeu muito, transou com várias mulheres, acabou enrabado e agora tem remorsos. O rabino o escuta atentamente e lhe diz que, para obter o perdão, que volte no dia seguinte com refrigerantes, biscoitos, bolos, doces e outras guloseimas e que tudo tem de ser, obviamente, kosher.
O árabe se surpreende, alegra-se por cumprir sua penitência por tão pouco e então pergunta ao rabino:
- É tudo que tenho que fazer? Porque o Iman pediu US$15.000,00, o padre
católico pediu US$8500,00? O senhor tem certeza de que o que está me pedindo é tudo?
O rabino responde:
- Absolutamente certo! É assim entre nós: cada vez que enrabam um árabe, nós comemoramos com uma festinha.
Cortesia do meu irmão Cócis
Um árabe decide ir a uma suruba. Transa com várias mulheres de todas as maneiras. No troca-troca, se misturam alguns homens e acaba enrabado.
No dia seguinte começa a ter agudos e constantes remorsos do bacanal e vai até a mesquita para confessar-se com o Iman e assim obter o perdão. Começa a explicar sua noite devassa: "Tomei álcool, fiz sexo com outras mulheres que não as minhas e ao final fui enrabado." O Iman diz que é extremamente grave e que se quer ser perdoado deve voltar no dia seguinte com US$ 15.000,00 para a mesquita.
O árabe sai, feliz por ter achado a solução, mas incomodado com o monte de grana que terá que doar.
Em seu caminho passa por uma Igreja Católica. Reflete que apesar de não ser sua religião, talvez possa obter uma absolvição mais em conta...
Entra e fala com o padre: "Tomei bebidas, fiz sexo com várias mulheres a fui enrabado por um cara." O padre diz que não se preocupe; mesmo não sendo católico pode ajudar a paróquia e se quiser o perdão de Deus, deve voltar com US$ 8.500,00.
O árabe sai mais aliviado por ter conseguido um desconto no preço do pecado...
Caminha um pouco mais, passa na frente de uma Sinagoga e, claro, fica tentado em ver se pode conseguir um pouco mais barato. Por que não?
Entra, procura o rabino e conta-lhe que se bem que não seja judeu, ali está na sinagoga porque teve uma noite de orgia, bebeu muito, transou com várias mulheres, acabou enrabado e agora tem remorsos. O rabino o escuta atentamente e lhe diz que, para obter o perdão, que volte no dia seguinte com refrigerantes, biscoitos, bolos, doces e outras guloseimas e que tudo tem de ser, obviamente, kosher.
O árabe se surpreende, alegra-se por cumprir sua penitência por tão pouco e então pergunta ao rabino:
- É tudo que tenho que fazer? Porque o Iman pediu US$15.000,00, o padre
católico pediu US$8500,00? O senhor tem certeza de que o que está me pedindo é tudo?
O rabino responde:
- Absolutamente certo! É assim entre nós: cada vez que enrabam um árabe, nós comemoramos com uma festinha.
Cortesia do meu irmão Cócis
segunda-feira, 25 de abril de 2005
Depois reclamam quando a gente sacaneia
Depois reclamam quando a gente sacaneia
Ao ler esta matéria no domingo, no Globo, fiquei pensando nos estragos que a falta de um pouquinho de sexo faz ao cérebro humano. É bem verdade que se esses rapazes gostassem de sexo (com mulheres, por supuesto) teriam mais o que fazer em vez de ir a churrascaria comemorar eleição de Papa...
Ao ler esta matéria no domingo, no Globo, fiquei pensando nos estragos que a falta de um pouquinho de sexo faz ao cérebro humano. É bem verdade que se esses rapazes gostassem de sexo (com mulheres, por supuesto) teriam mais o que fazer em vez de ir a churrascaria comemorar eleição de Papa...
quarta-feira, 20 de abril de 2005
Descobriram a pólvora...
Descobriram a pólvora...
Diz a Folha que o Papa Bento XVI escolheu os jovens como alvo. Grandes coisas, os padres, especialmente os da arquidiocese de Boston, fizeram isso há um tempão.
Diz a Folha que o Papa Bento XVI escolheu os jovens como alvo. Grandes coisas, os padres, especialmente os da arquidiocese de Boston, fizeram isso há um tempão.
terça-feira, 19 de abril de 2005
E eu, cara-pálida?
E eu, cara-pálida?
Lula pediu perdão aos negros pelo horror da escravidão e depois pediu perdão aos índios pelo genocídio. Que tal pedir perdão a mim por ter me embromado em 2002?
Lula pediu perdão aos negros pelo horror da escravidão e depois pediu perdão aos índios pelo genocídio. Que tal pedir perdão a mim por ter me embromado em 2002?
É o homem!
É o homem!
Descobri quem odeia a igreja católica mais do que eu: os cardeais do conclave.
Começa o pontificado de Bento XVI, até esta manhã conhecido como cardeal Josef Ratzinger. Tão conservador que, se Gengis Kahn foss um cardeal, Ratzinger estaria à direita. É contra qualquer reforma que modernize o catolicismo, contra o uso de preservativos no combate à Aids (mesmo que isso implique um genocídio na África), contra a ordenação de mulheres, contra o fim do celibato, contra o engajamento político (à esquerda, claro) do clero etc.
Para melhorar, Ratzinger vem da Alemanha, país de maioria protestante. A cúpula da igreja de seu país não gosta dele. Como todos os alemães de sua geração, teve de participar da juventude hitlerista - era criança e não tinha responsabilidade por isso, claro, mas não é uma lembrança agradável para franceses, holandeses, ingleses etc. Foi o responsável por um documento assinado por João Paulo II afirmando que o cristianismo era a única religião e que a igreja católica era verdadeira representante de Jesus. É esse sujeito que vai ter de dialogar com as demais denomiações cristãs e lidar com o mundo árabe.
Há uns 500 anos, a eleição de um sujeito com esse perfil representaria uma ameaça à civilização. Hoje, fora o potencial estrago na África, representa uma ameaça à própria igreja católica. Que seu reinado seja longo.
Descobri quem odeia a igreja católica mais do que eu: os cardeais do conclave.
Começa o pontificado de Bento XVI, até esta manhã conhecido como cardeal Josef Ratzinger. Tão conservador que, se Gengis Kahn foss um cardeal, Ratzinger estaria à direita. É contra qualquer reforma que modernize o catolicismo, contra o uso de preservativos no combate à Aids (mesmo que isso implique um genocídio na África), contra a ordenação de mulheres, contra o fim do celibato, contra o engajamento político (à esquerda, claro) do clero etc.
Para melhorar, Ratzinger vem da Alemanha, país de maioria protestante. A cúpula da igreja de seu país não gosta dele. Como todos os alemães de sua geração, teve de participar da juventude hitlerista - era criança e não tinha responsabilidade por isso, claro, mas não é uma lembrança agradável para franceses, holandeses, ingleses etc. Foi o responsável por um documento assinado por João Paulo II afirmando que o cristianismo era a única religião e que a igreja católica era verdadeira representante de Jesus. É esse sujeito que vai ter de dialogar com as demais denomiações cristãs e lidar com o mundo árabe.
Há uns 500 anos, a eleição de um sujeito com esse perfil representaria uma ameaça à civilização. Hoje, fora o potencial estrago na África, representa uma ameaça à própria igreja católica. Que seu reinado seja longo.
quinta-feira, 14 de abril de 2005
Infatilização é isso aí
Infatilização é isso aí
Enquanto os cardeais se preparam para o conclave que pode consagrar Josef Ratzinger como novo Papa (uhu!), andei pensando um pouco sobre a nota anterior, especialmente sobre a opinião de Leonardo Boff. Lembrei-me de um causo contado pelo historiador francês Serge Gruzinski, um dos maiores especialistas em história mexicana em todo o mundo, quando o entrevistei para o número 13 de Nossa História.
Conta ele que, no fim dos anos 90, com o avanço das seitas evangélicas no México - e de suas redes de TV -, firmou-se uma sólida parceria entre a Igreja Católica e a Televisa para um acontecimento que novamente impulsionaria o catolicismo no país: a canonização de Jan Diego, o índio humilde que teve a visão da Virgem de Guadalupe em 1531.
Aqui é necessário um parêntese. A Televisa, para quem não sabe, é o maior império de comunicação da América Espanhola. Tudo que a turma da teoria conspiratória imagina que a Globo faz por aqui, ela faz de fato em dezenas de países. Ainda que sua abrangência no México seja do gênero da que a Globo tinha nos anos 70 e 80, sua programação popularesca está mais para Record, mesmo.
Pois bem, toda essa máquina de mídia foi posta em movimento para enaltecer a biografia do "índio humilde" e os feitos da Santa Madre no México. Todos os dias os mexicanos eram lembrados que Juan Diego seguia para o catecismo quando, no topo da colina Tepeyac deu de cara com a Virgem Maria, que mandou-o dizer ao bispo para construir ali um santuário para ela. Enquanto isso, o Vaticano corria com a beatificação e a canonização do dito cujo, levada a cabo em 31 de julho de 2002.
Tudo muito bom, tudo muito bem, não fosse pela grita de parte do próprio clero mexicano. O motivo era bem simples e conhecido de qualquer historiador minimamente informado: O "índio humilde" Juan Diego é um personagem fictício. Quando os espanhóis invadiram o México, encontraram no topo da referida colina o concorrido santuário de uma divindade feminina asteca. Seguindo um padrão que fazia sucesso há mais de mil anos, transformaram a deusinha local numa santa (e não numa santa qualquer, mas na própria Virgem de Guadalupe) e construíram-lhe uma igreja sobre o local do santuário. A história de Juan Diego foi inventada pouco depois.
Esses clérigos reclamões - ligados, claro, à dita igreja progressista - achavam um absurdo que o Vaticano enfrentasse a mistificação e as armações dos pastores evangélicos com mais mistificação e armações. Ainda mais em parceria com a Televisa, que não é exatamente uma organização livre de pecado.
O resultado? Foram todos perseguidos e enquadrados. Não podiam lecionar, pregar nem publicar - e o "índio humilde" virou santo com toda a pompa e circunstância. Como disse o ex-frade brasileiro, "um esforço de normatização da fé, de mediocrização das inteligências e uma infantilização dos cristãos".
Mas, cá entre nós, temos que dar um desconto ao Vaticano. Se existência de fato dos personagens e comprovação historiográfica significassem alguma coisa, a Igreja como um todo não existiria.
Enquanto os cardeais se preparam para o conclave que pode consagrar Josef Ratzinger como novo Papa (uhu!), andei pensando um pouco sobre a nota anterior, especialmente sobre a opinião de Leonardo Boff. Lembrei-me de um causo contado pelo historiador francês Serge Gruzinski, um dos maiores especialistas em história mexicana em todo o mundo, quando o entrevistei para o número 13 de Nossa História.
Conta ele que, no fim dos anos 90, com o avanço das seitas evangélicas no México - e de suas redes de TV -, firmou-se uma sólida parceria entre a Igreja Católica e a Televisa para um acontecimento que novamente impulsionaria o catolicismo no país: a canonização de Jan Diego, o índio humilde que teve a visão da Virgem de Guadalupe em 1531.
Aqui é necessário um parêntese. A Televisa, para quem não sabe, é o maior império de comunicação da América Espanhola. Tudo que a turma da teoria conspiratória imagina que a Globo faz por aqui, ela faz de fato em dezenas de países. Ainda que sua abrangência no México seja do gênero da que a Globo tinha nos anos 70 e 80, sua programação popularesca está mais para Record, mesmo.
Pois bem, toda essa máquina de mídia foi posta em movimento para enaltecer a biografia do "índio humilde" e os feitos da Santa Madre no México. Todos os dias os mexicanos eram lembrados que Juan Diego seguia para o catecismo quando, no topo da colina Tepeyac deu de cara com a Virgem Maria, que mandou-o dizer ao bispo para construir ali um santuário para ela. Enquanto isso, o Vaticano corria com a beatificação e a canonização do dito cujo, levada a cabo em 31 de julho de 2002.
Tudo muito bom, tudo muito bem, não fosse pela grita de parte do próprio clero mexicano. O motivo era bem simples e conhecido de qualquer historiador minimamente informado: O "índio humilde" Juan Diego é um personagem fictício. Quando os espanhóis invadiram o México, encontraram no topo da referida colina o concorrido santuário de uma divindade feminina asteca. Seguindo um padrão que fazia sucesso há mais de mil anos, transformaram a deusinha local numa santa (e não numa santa qualquer, mas na própria Virgem de Guadalupe) e construíram-lhe uma igreja sobre o local do santuário. A história de Juan Diego foi inventada pouco depois.
Esses clérigos reclamões - ligados, claro, à dita igreja progressista - achavam um absurdo que o Vaticano enfrentasse a mistificação e as armações dos pastores evangélicos com mais mistificação e armações. Ainda mais em parceria com a Televisa, que não é exatamente uma organização livre de pecado.
O resultado? Foram todos perseguidos e enquadrados. Não podiam lecionar, pregar nem publicar - e o "índio humilde" virou santo com toda a pompa e circunstância. Como disse o ex-frade brasileiro, "um esforço de normatização da fé, de mediocrização das inteligências e uma infantilização dos cristãos".
Mas, cá entre nós, temos que dar um desconto ao Vaticano. Se existência de fato dos personagens e comprovação historiográfica significassem alguma coisa, a Igreja como um todo não existiria.
quarta-feira, 6 de abril de 2005
Habemus candidatum
Habemus candidatum
Algumas pessoas devem estar estranhando eu não ter feito qualquer comentário sobre a morte de João Paulo II. Pois é, apesar de ele ter estragado meu fim de semana (Cristina foi convocada para trabalhar), preferi seguir a máxima do "se não tem nada de bom a dizer do morto, nada diga".
Mas é óbvio que não estou indiferente ao processo de escolha do novo bispo de Roma. Até a manhã de hoje eu torcia ardorosamente pela escolha de um cardeal africano, qualquer um. Mas mudei de candidato ao ler hoje a notável seqüência de sandices disparadas pelo cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, d. Eusébio Oscar Scheid. Espero que os membros do conclave fiquemi cativados pela figura dele e dêem-lhe uma chance de comandar a igreja. D. Eusébio já!
Para quem não leu (clique aqui), o cardeal disparou uma saraivada de ataques grosseiros contra Lula, aparentemente do nada. Disse que ele não é "católico", e sim "caótico", que "não se entende bem com o Espírito Santo". O pano de fundo dos ataques parece ser o fato de Lula, a despeito de ser católico, defender políticas de direitos dos gays, prevenção da Aids por uso de camisinhas, descriminalização do aborto etc. Quase me arrependi de ter me arrependido de votar em Lula - que, aliás, foi eleito para ser presidente de um país laico, e não preposto do Vaticano em Brasília.
Claro que d. Eusébio está jogando para a torcida - apesar desta não ter voto no conclave. Com o gado cada vez mais conservador e, digamos, pouco letrado, esse tipo de discurso agressivo mas sem conteúdo dá o maior Ibope. Lembrei de uma entrevista de Leonardo Boff publicada há alguns dias na qual ele dizia que o pontificado de João Paulo II havia se caracterizado teologicamente por "por um esforço de normatização da fé, de mediocrização das inteligências e uma infantilização dos cristãos". Para um público infantilizado, comentários como os do cardeal são melhores que show de padre cantor.
"Peraí, Leo. Como é que, depois dessa desancada, você diz que torce para que d. Eusébio seja eleito Papa?" E que é que disse que eu desejo um bom futuro para a igreja?
Algumas pessoas devem estar estranhando eu não ter feito qualquer comentário sobre a morte de João Paulo II. Pois é, apesar de ele ter estragado meu fim de semana (Cristina foi convocada para trabalhar), preferi seguir a máxima do "se não tem nada de bom a dizer do morto, nada diga".
Mas é óbvio que não estou indiferente ao processo de escolha do novo bispo de Roma. Até a manhã de hoje eu torcia ardorosamente pela escolha de um cardeal africano, qualquer um. Mas mudei de candidato ao ler hoje a notável seqüência de sandices disparadas pelo cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, d. Eusébio Oscar Scheid. Espero que os membros do conclave fiquemi cativados pela figura dele e dêem-lhe uma chance de comandar a igreja. D. Eusébio já!
Para quem não leu (clique aqui), o cardeal disparou uma saraivada de ataques grosseiros contra Lula, aparentemente do nada. Disse que ele não é "católico", e sim "caótico", que "não se entende bem com o Espírito Santo". O pano de fundo dos ataques parece ser o fato de Lula, a despeito de ser católico, defender políticas de direitos dos gays, prevenção da Aids por uso de camisinhas, descriminalização do aborto etc. Quase me arrependi de ter me arrependido de votar em Lula - que, aliás, foi eleito para ser presidente de um país laico, e não preposto do Vaticano em Brasília.
Claro que d. Eusébio está jogando para a torcida - apesar desta não ter voto no conclave. Com o gado cada vez mais conservador e, digamos, pouco letrado, esse tipo de discurso agressivo mas sem conteúdo dá o maior Ibope. Lembrei de uma entrevista de Leonardo Boff publicada há alguns dias na qual ele dizia que o pontificado de João Paulo II havia se caracterizado teologicamente por "por um esforço de normatização da fé, de mediocrização das inteligências e uma infantilização dos cristãos". Para um público infantilizado, comentários como os do cardeal são melhores que show de padre cantor.
"Peraí, Leo. Como é que, depois dessa desancada, você diz que torce para que d. Eusébio seja eleito Papa?" E que é que disse que eu desejo um bom futuro para a igreja?
Você já foi a Bosta? Então vá!
Você já foi a Bosta? Então vá!
Ao longo desses anos eu já fui mandando à merda uma infinidade de vezes. Em algumas delas, aliás, eu fui.
Só que hoje foi a minha própria esposa, mãe da minha única herdeira, a querer que eu fosse a Bosta. Sabe o que é pior? Deu mesmo a maior vontade de ir.
Bosta, para quem não sabe (e eu não sabia) é uma localidade microscópica na Escócia, mais precisamente na ilha de Grande Bernera. Para um pagão que ama História e Arqueologia, é tudo de bom. Além da paisagem belíssima do litoral escocês, Bosta tem um verdadeiro tesouro para os visitantes: a reprodução perfeita de uma casa da Idade do Ferro.
Bosta tinha uma aldeia, datada provavelmente do século VI E.A., que foi inteiramente coberta pelas areias da praia e assim permaneceu até 1996, quando uma tempestade particularmente violenta expôs as ruínas. A casa foi construída seguindo os padrões desses restos.
Para saber mais sobre as maravilhas de Titica, digo, de Bosta, clique aqui.
Ao longo desses anos eu já fui mandando à merda uma infinidade de vezes. Em algumas delas, aliás, eu fui.
Só que hoje foi a minha própria esposa, mãe da minha única herdeira, a querer que eu fosse a Bosta. Sabe o que é pior? Deu mesmo a maior vontade de ir.
Bosta, para quem não sabe (e eu não sabia) é uma localidade microscópica na Escócia, mais precisamente na ilha de Grande Bernera. Para um pagão que ama História e Arqueologia, é tudo de bom. Além da paisagem belíssima do litoral escocês, Bosta tem um verdadeiro tesouro para os visitantes: a reprodução perfeita de uma casa da Idade do Ferro.
Bosta tinha uma aldeia, datada provavelmente do século VI E.A., que foi inteiramente coberta pelas areias da praia e assim permaneceu até 1996, quando uma tempestade particularmente violenta expôs as ruínas. A casa foi construída seguindo os padrões desses restos.
Para saber mais sobre as maravilhas de Titica, digo, de Bosta, clique aqui.
sexta-feira, 1 de abril de 2005
Politicamente incorretíssima
Politicamente incorretíssima
Só faz sentido em inglês
Michael Schiavo goes out for dinner after a day at his wife's bedside and orders a steak.
"Very good sir", says the waiter, "and for the vegetable?"
"Oh", replies Michael, "she's not hungry."
Contribuição da minha querida Ângela Fatorelli
Só faz sentido em inglês
Michael Schiavo goes out for dinner after a day at his wife's bedside and orders a steak.
"Very good sir", says the waiter, "and for the vegetable?"
"Oh", replies Michael, "she's not hungry."
Contribuição da minha querida Ângela Fatorelli
quinta-feira, 31 de março de 2005
Para os anais
Para os anais
Esse me chegou por e-mail, enviada pela Cristina (a.k.a. Digníssima):
Salvador - Reflexões sobre as agruras do exame de próstata, ocuparam grande parte do tempo da sessão de ontem da Assembléia Legislativa da Bahia. Tudo porque o deputado Manoel Isidório de Santana de 43 anos, o Sargento Isidório do PT, usando o tempo cedido pela liderança da oposição na Casa, fez um áspero discurso contra o referido exame, ao qual havia se submetido pela primeira vez na parte da manhã e conforme suas palavras ainda estava "vendo estrelas" por uma suposta violência do médico.
O exame é o mais recomendado para se prevenir o câncer de próstata e consiste no toque da glândula com o dedo através do ânus. Classificando o exame de "angustiante", e exortando a Medicina a criar outro método que não "penalize" tanto os pacientes, Sargento Isidório se inflamou na tribuna e fazia questão de mostrar com gestos exagerados e gritos, como o doutor foi rude.
Embora afirmasse não querer se estender muito no assunto, por considerar "desmoralizante para um pai de família", o deputado petista foi descrevendo detalhes, enquanto seus colegas se divertiam no plenário. Entre outras coisas, reclamou do fato de ser enganado sobre a forma como o exame de toque é feito e repetiu que "foi horrível" e quase desmaia.
Ele gastou cerca de 25 minutos como tema que provavelmente seria encerrado se o deputado e médico Targino Machado (PMDB) não tivesse pedido um aparte para criticar o discurso apologético de Sargento Isidório contra o exame. Foi o suficiente para o petista voltar à carga repetindo toda à sua "desagradável" experiência. Uma das coisas que deixou o Sargento Isidório mais indignado é que após o exame, o médico abriu a porta e chamou o próximo paciente "como se nada tivesse acontecido", enquanto o petista saiu do consultório sentindo-se "deflorado".
Na certa o nobre deputado esperava que o médico o levasse para jantar, mandasse flores e telefonasse no dia seguinte...
Esse me chegou por e-mail, enviada pela Cristina (a.k.a. Digníssima):
Salvador - Reflexões sobre as agruras do exame de próstata, ocuparam grande parte do tempo da sessão de ontem da Assembléia Legislativa da Bahia. Tudo porque o deputado Manoel Isidório de Santana de 43 anos, o Sargento Isidório do PT, usando o tempo cedido pela liderança da oposição na Casa, fez um áspero discurso contra o referido exame, ao qual havia se submetido pela primeira vez na parte da manhã e conforme suas palavras ainda estava "vendo estrelas" por uma suposta violência do médico.
O exame é o mais recomendado para se prevenir o câncer de próstata e consiste no toque da glândula com o dedo através do ânus. Classificando o exame de "angustiante", e exortando a Medicina a criar outro método que não "penalize" tanto os pacientes, Sargento Isidório se inflamou na tribuna e fazia questão de mostrar com gestos exagerados e gritos, como o doutor foi rude.
Embora afirmasse não querer se estender muito no assunto, por considerar "desmoralizante para um pai de família", o deputado petista foi descrevendo detalhes, enquanto seus colegas se divertiam no plenário. Entre outras coisas, reclamou do fato de ser enganado sobre a forma como o exame de toque é feito e repetiu que "foi horrível" e quase desmaia.
Ele gastou cerca de 25 minutos como tema que provavelmente seria encerrado se o deputado e médico Targino Machado (PMDB) não tivesse pedido um aparte para criticar o discurso apologético de Sargento Isidório contra o exame. Foi o suficiente para o petista voltar à carga repetindo toda à sua "desagradável" experiência. Uma das coisas que deixou o Sargento Isidório mais indignado é que após o exame, o médico abriu a porta e chamou o próximo paciente "como se nada tivesse acontecido", enquanto o petista saiu do consultório sentindo-se "deflorado".
Na certa o nobre deputado esperava que o médico o levasse para jantar, mandasse flores e telefonasse no dia seguinte...
sábado, 26 de março de 2005
Telecine Anta
Telecine Anta
Sugestão para os marketeiros da Globosat: O Telecine primeiro criou um canal com filmes dublados (em geral mal dublados) e agora passou, no canal principal, a incluir legendas na chamada "esrita da Internet". Por que não juntam tudo num único canal, o "Telecine Analfabeto"? Ia nos ajudar muito na hora de excluir da programação.
Sugestão para os marketeiros da Globosat: O Telecine primeiro criou um canal com filmes dublados (em geral mal dublados) e agora passou, no canal principal, a incluir legendas na chamada "esrita da Internet". Por que não juntam tudo num único canal, o "Telecine Analfabeto"? Ia nos ajudar muito na hora de excluir da programação.